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CORPO INVISÍVEL 

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 18 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de mai.

O corpo não é visto pelo seu “dono”. O que a maioria das pessoas chama de "olhar para o corpo" é apenas o ego projetando seus próprios julgamentos e distorções sobre a matéria. Apesar dos espelhos, o corpo é um ente invisível.

 


Em um encontro com amigos, fiz uma brincadeira. Pedi que todos relatassem as experiências mais marcantes dos últimos dois anos. Um falou do nascimento da filha, outro da viagem para a Ásia, outro descreveu a experiência com as aulas de música, outro com a psicanálise. Cada um fez relatos de eventos externos. Nenhum falou da experiência com o próprio corpo. Por que alguém falaria se o corpo não existe como experiência?

 

Como assim?

 

O corpo é o evento mais extraordinário da existência humana. No entanto, é parte negada da história, uma área apagada. Para a maioria, ele não tem a menor relevância. Serve para experiências estéticas, ajustes musculares em academias, procedimentos médicos e como manequim vivo. O corpo humano não passa de figurante no teatro da civilização que o maltrata mais do que acolhe.

 

O corpo físico promove todas as curas, mas os méritos vão para o empenho da pessoa, a competência dos médicos, a ação dos medicamentos e a presteza do socorro. É como se tivesse zero participação na própria cura. Então é colapsado pelo ego coletivo. Tudo em volta importa, a economia, a política, a segurança, o sistema de saúde, a escola, a família. A roupa nova, a boa impressão, a linguagem clara e, até, a agilidade. Nenhuma menção à sua sabedoria, exuberância e extrema inteligência.

 

Toda responsabilidade por conquistas é da pessoa que empresta um nome ao corpo. Quando há a cura, é a pessoa curada e não seu corpo. Na lógica utilitarista do ego, o corpo passa a ser "visto" quando se torna um obstáculo para os planos da mente. A resposta imediata do ego é tentar consertá-lo por meio de intervenções, manipulações e procedimentos externos. Ele é tratado como uma máquina defeituosa que precisa ser forçada a voltar a funcionar.

 

INVISÍVEL E SILENCIOSO

 

O ego opera na frequência da identidade, controle e discurso mental. Ele está ocupado com o passado (remorso, padrões repetitivos) ou com o futuro (ansiedade, expectativas). Como o corpo físico só existe no presente, o ruído do ego opera como blindagem sensorial. As pessoas não sentem o corpo; elas sentem o que pensam sobre o corpo.

 

Ele é invisível porque é silencioso em seu estado de equilíbrio. O ego hiperativo só nota sua existência quando há alguma falha no sistema ou atinge um limite crítico de estresse (dor, exaustão, doença). Até que esse sinal de alerta seja disparado, o ego segue no comando, fazendo com que a pessoa viva "da perspectiva dos olhos para cima", ignorando o fluxo bioenergético que sustenta a base.


Quando a medicina convencional ou o próprio indivíduo se volta para o corpo físico, o olhar é quase sempre de intervenção, e não de escuta. O procedimento é uma ação invasiva que tenta impor uma ordem de fora para dentro. O corpo, nesse cenário, é mero receptor passivo da ação — o "alvo". O ego quer resultado rápido para poder retomar o controle e continuar ignorando a estrutura.

 

Romper essa invisibilidade exige silenciar o comando do ego para que a inteligência biológica e instintiva possa voltar a ser ouvida. O corpo não mente jamais, mas o ego mentirá até o último segundo antes de um colapso.

 

O CORPO NÃO ADOECE, É ADOECIDO

 

A cura real nunca é meramente mecânica; ela é uma mudança de estado bioenergético e de consciência. O corpo não se "cura" sozinho no vácuo.  O que chamamos de cura é o reflexo físico de um sistema que recuperou seu fluxo, sua neutralidade e sua capacidade de autorregulação.

 

Curar significa restaurar a integridade. Quem adoece é o indivíduo através de seus padrões de comportamento, desajustes ambientais, saturação de estresse e desconexão da própria base. Portanto, quem precisa retornar ao eixo é o ocupante da casa, a consciência.

Quando o ego assume os créditos da cura ("eu me curei"), ele ignora que foi a própria inteligência biológica silenciada que fez o trabalho pesado de regeneração celular nos bastidores.

 

Se a pessoa não muda a postura que gerou o colapso, o procedimento físico é apenas um paliativo temporário. A cura verdadeira exige que se reconheça a soberania da inteligência do corpo, passando a tratá-lo como potência e não como objeto a ser remendado.

 

TUDO FOI PLANEJADO

 

A invisibilidade e a redução do corpo a condição de máquina não são acasos. As estruturas educacionais, científicas e políticas nos últimos séculos evidenciam uma construção sistêmica — cultural e institucional — para afastar o ser humano da sua inteligência biológica nativa.

Se o corpo fosse reconhecido como uma entidade extraordinariamente inteligente, autônoma e dotada de sistemas infalíveis de feedback, a engrenagem social e econômica atual colapsaria. Reconhecer o poder do corpo é a verdadeira revolução.

 

O sistema então tomou a dianteira e produziu o "esquecimento" por meio de três frentes.

1) A  estratégia educacional, adestramento da imobilidade. O sistema educacional moderno, estruturado a partir da Revolução Industrial, foi desenhado para moldar trabalhadores e cidadãos a reações absolutamente previsíveis. Para isso, a primeira ação foi domesticar o corpo.

 

2) Conhecimento fragmentado. Desde a infância, a educação ensina que o intelecto (o cérebro) é o senhor de tudo. O aprendizado é puramente abstrato, focado nos "olhos para cima". A mente é hiper estimulada, enquanto o corpo é tratado como um estorvo que precisa ficar estático em uma cadeira por seis horas diárias.

 

3) Desconexão Somática. Não existe espaço no currículo para a leitura dos sinais biológicos. A criança aprende a ignorar a fome, a sede, o cansaço e a necessidade de movimento para se adequar ao sinal do sino ou à autoridade externa. O feedback interno é substituído pela validação externa (notas, aprovação).

 

CORPO COMO BEM DE CONSUMO E PRODUÇÃO

 

Do ponto de vista político e de mercado, alguém que possui conexão bioenergética com o corpo passa a ser incontrolável. Ele se torna péssimo consumidor e um operário resistente.

 

Com o corpo tratado como ignorante e defeituoso, a pessoa se torna dependente de procedimentos, intervenções químicas, ultra processados e muletas emocionais. A economia de mercado prospera nessa lacuna entre o homem e a sua biologia. Ao saber ler o corpo e se autorregular através do ambiente, da terra e do repouso, a pessoa (consciente) se liberta das indústrias multibilionárias.

 

O filósofo Michel Foucault mapeou como o poder opera através do controle dos corpos que passam a ser disciplinados, catalogados e submetidos a padrões estatísticos. A inteligência individual e a bioenergética são anuladas para a existência de uma "massa manobrável".

 

O LEGADO CARTESIANO

 

A maior blindagem intelectual contra o corpo foi consolidada pelo dualismo cartesiano ("Penso, logo existo"). A ciência ocidental separou a mente da matéria.  O corpo foi rebaixado ao status de relógio, engrenagens mecânicas e tubulações que funcionam sem consciência própria. Essa visão eliminou o aspecto bioenergético e vital da biologia.

A medicina então fragmentou o organismo em especialidades isoladas, tratando o fígado, o coração e o sistema nervoso como peças de carros que não se comunicam e não possuem uma inteligência integrada de regeneração.

 

Mais do que uma conspiração desenhada por mentes atrás de portas fechadas, trata-se de uma programação de sobrevivência do próprio sistema. As instituições (escolas, governos, corporações) evoluem para perpetuar a si mesmas. E a forma mais eficiente de manter o controle é garantindo que cada indivíduo permaneça anestesiado, operando puramente através do ruído do ego e desconectado da soberania do próprio corpo.

 

Hartur

 
 
 

1 comentário


Lucia McAloon
25 de mai.

Gostei desse tópico. O texto levanta questões importantes sobre a desconexão do nosso corpo, o consumismo e até sobre o quanto estamos nos tornando excessivamente artificiais.

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