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JESUS CORPORATION

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 26 de mai.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de mai.



O capitalismo não passa de uma ideia carimbada em praticamente tudo, do alfinete ao avião, do lixo ao vinho. O sistema é avassalador, capaz de transformar o que não existe em mercadoria. O dinheiro usado hoje, por exemplo, é apenas símbolo de confiança. Sem lastro algum, não passa de uma abstração, um algoritmo. No entanto é tratado como deus.  

 

Marcas como Apple, Coca-Cola, McDonald’s não existem no mundo físico, mas como símbolos. Se todas as lojas e fábricas desaparecessem, as marcas continuariam vivas valendo bilhões. A meritocracia é outro símbolo. Vendida como lei natural, ela legitima a desigualdade e transforma o sucesso em responsabilidade pessoal. Todo mundo sabe (ou deveria saber) que isso é uma monumental mentira. Sim, a mentira também é comercializada nas formas de “livre mercado”, “mercado nervoso”, bolsa de valores e “sonho americano”.

 

O capitalismo, enfim, vende símbolos. E um dos mais poderosos é “Jesus”.

 

Jesus Corporation é responsável por movimentar trilhões de dólares anuais. Se fosse um país, seria a 15ª economia do mundo à frente de Arábia Saudita, Suíça e Coreia do Sul. Apenas nos Estados Unidos, movimenta US$ 1,2 trilhão por ano. Vende de santinhos a pacotes milionários de turismo, do Guaraná Jesus à roupas de grife e streetwear de luxo como a “Jesus Walks”. Moletons vendidos a US$ 225 e meias a US$ 50 esgotaram em minutos após lançamentos.

 

Plataformas digitais operam focadas nesse nicho de mercado. A corporação “Jesus Loves You Company”, por exemplo, gerencia uma base de centenas de milhares de clientes comercializando roupas, camisetas e acessórios pelas redes sociais.

 

A marca "Jesus" tem elementos que qualquer multinacional invejaria. A identidade visual é universal e qualquer pessoa do mundo, alfabetizada ou não, reconhece o “logotipo”. Tem o discurso perfeito, a jornada do herói arquetípica, o nascimento humilde, o sacrifício e o renascimento. A conexão emocional é imediata. Tem franquias em todas as partes do planeta e um manual que é o mais vendido no mundo, a bíblia.

 

ENTÃO É NATAL


É tão forte que chegou a dividir períodos da história em antes e depois dele. O projeto Jesus nasceu 1.500 anos antes da Revolução Industrial, como um prenúncio do sistema que seria estruturado com sua participação. O pensador Max Weber defendia que uma vertente do cristianismo, o Calvinismo, ajudou a moldar e a impulsionar o capitalismo. Através do trabalho árduo e do sucesso econômico, as pessoas alcançariam as bênçãos divinas, defendia o reformador protestante João Calvino. Se fosse vivo hoje, Calvino estaria do lado da extrema-direita e de Donald Trump. 

 

Um dos maiores exemplos da força da Jesus Corporation é o Natal. Até o século XIX, era uma festa religiosa e comunitária. O capitalismo industrial e o comercio transformaram a data no maior evento de consumo do planeta, atrelando a suposta data de “nascimento” de Cristo à troca de mercadorias.  

 

Não importa se ele existiu ou não (não há qualquer registro histórico de sua existência) a fé é o suficiente. Se no passado, a igreja e os reis estimulavam a crença como forma de anestesiar e dominar as massas, hoje esse papel é compartilhado com a indústria, os bancos, o estado, as igrejas e a mídia. O sistema é sustentado pela fé. Jesus Corporation é o sistema. E quem recusa ou não acredita é excomungado.

Ou melhor, em linguagem moderna, cancelado.  


Hartur

 
 
 

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