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XANDÃO É FODA 

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 27 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

O ministro pediu perdão da palavra e leu ipsis litteris trecho da minuta onde o golpista orientava: “elogie o Garnier e fode o BJ”. Leu em pleno Supremo Tribunal Federal, o respeitável STF no dia histórico em que o ex-presidente Bolsonaro virou réu por liderar organização criminosa.

Alexandre de Moraes poderia omitir como fez adiante com um termo em latim, provavelmente culus, no popular, cu, uma das palavras que abundaram nos textos golpistas. Xandão com sua elegância mandou o fode e ninguém fez careta.

 

Terceira pessoa do indicativo do verbo foder, fode é uma das expressões chulas que evoluíram na cadeia etimológica.  No futuro serão tão normalizadas que integrarão peças jurídicas, falas de professores, teses, receitas médicas e até notícias de óbito. Morreu de ataque cardíaco provavelmente por foder muito, declarou a cardiologista Paula Vado.

 

A normalização de palavras chulas é um fenômeno linguístico e social que acompanha os ciclos civilizatórios. No português medieval, “foder” significava apenas copular. Por associação ao pecado, tornou-se tabu. Se eu me atrevesse a falar “foda” diante dos meus pais no século XX, levaria um tapão nas ventas. Hoje é usado coloquialmente entre as velhinhas de Taubaté e até como decisão de última hora: sabe de uma, foda-se, vou me picar!

 

MERDA, CU E BUNDA

 

Merda já foi um termo puramente escatológico. Até virar desejo de boa sorte no teatro e terminar como exclamação “que filme merda”!  O impacto anterior foi aliviado pela banalização. Mas “vá à merda” é um desses termos sensacionais que nos faz liberar demônios. Todo mundo sonha um dia em mandar algum filho da puta à merda. Eu já mandei. Outro termo escatológico, “cagar” era disgusting, nojento. Hoje é utilizado como “cagar regras”, desrespeitar normas ou desprezar, cagando e andando.

 

Palavra do latim “culus”, o termo cu ainda tem sua carga de tabu. Mas já aparece em expressões neutras como foda-se. O “vai tomar no cu” é um eficiente processo de desabafo, expurgo, com a boca cheia. Vai tomar no cu é outra expressão que no futuro será desejo de boa sorte. Não perca a chance, vá tomar no cu e seja feliz. Outra variação é a mistura de cu com bunda indicando surpresa. “Vou contar uma que vai fazer cair o cu da bunda”. Todo mundo entende.

 

CARALHO, PORRA, FILHO DA PUTA

 

A língua dinâmica permite que termos considerados insultos passem a ganhar novos significados e até virar manifestações de afeto. É o caso de caralho, porra e filho da puta, em transição do agressivo ao afetivo, todos referências à sexualidade.

 

Porra perdeu seu caráter de sêmen para virar sinônimo de droga ou elogios. Show da porra! Comida ruim da porra! Caralho é uma das palavras mais antigas e versáteis com registros desde o século XVI. A etimologia é incerta, do latim “carallis" (mastro de navio) ou do Grego "kárkalos" (poste). Hoje pode ser um super elogio – filme do caralho!

 

A expressão "filho da puta" é um dos insultos mais antigos e universais. "Puta" deriva do latim "puta" (prostituta) ou "putare" (podar, pensar), que adquiriu conotação sexual pejorativa. Na Idade Média e no período colonial, chamar alguém de "filho da puta" era uma acusação gravíssima. Há registros de processos judiciais em Portugal do século XVI, onde o termo era motivo de duelos. Puta hoje é festejo, alegria, elogio.

 

A expressão "desgraça" nem sempre foi considerada palavrão, mas, ao longo do tempo adquiriu tom mais pesado e ofensivo em certos contextos. Originalmente significava "infelicidade", "má sorte" ou "acontecimento trágico”. Na literatura clássica (séculos XVI-XVIII), aparecia apenas como descrição de tragédias. A transformação aconteceu por associação com situações extremas. Como era usada para coisas muito ruins, começou a ser empregada como xingamento para desejar o mal. "Vá para a desgraça, seu desgraçado!”

 

OBSTÁCULOS E SEMIÓTICA

 

Mas existem obstáculos para as mudanças quando a conotação é de humilhação, ofensa e violência. Puta pode então deixar de ser elogio para virar misoginia, sobretudo quando acompanhada da expressão “vagabunda”. Preto filho da puta vira crime de racismo no Brasil da mesma forma que “essas desgraças de chineses” vira xenofobia.

 

Palavras são símbolos (semiótica) com camadas de significados cultural, emocional e histórico. Liberdade e paz, por exemplo, não são só palavras, mas conceitos filosóficos. A palavra “gato” não é um animal real, mas a ideia de um.  O termo cretino originalmente significava "doente", mas evoluiu para alguém desprezível. E a palavra “amor”, de origem indo-europeia, simbolizava “mãe”, “desejo” e até “caridade”. Hoje é emoção complexa, ampla, sua simples referência mobiliza várias sensações positivas.

 

A mudança das palavras hoje é acelerada com a revolução tecnológica. Começou com o rádio e a TV, mas a internet fez o processo atingir níveis estratosféricos. Não só conceitos, palavras viraram também imagens, memes, letras com números, códigos. Assim surgiram VTNC, KCT, PQP, PPK, BCTA, C*, Obg, Bomb4, Fak4da e uma puta diversidade em rede, sem chance alguma de voltar ao passado. Daqui a 500 anos é possível que elas desapareçam, substituídas pela telepatia. O barulho será o silêncio.

 

 
 
 

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