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O NARCISISMO E A TECNOSFERA

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 10 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 11 de fev.

 


É uma epidemia. Cada vez mais pessoas apresentam traços e o Transtorno de Personalidade Narcisista, o TPN. A tendência é avançar até tomar todos os espaços e não sobrar lugar para pessoas, digamos, comuns. O controverso estudo “The Narcissism Epidemic” (A Epidemia do Narcisismo) sugere que esse cenário pode ser realidade em um futuro não muito distante. O estudo da psicóloga Jean Twenge, Universidade Estadual de San Diego, Califórnia, envolveu 16 mil estudantes entre 1982 e 2006. O aumento foi tão acentuado que ela descreveu o fenômeno na ocasião como epidemia. Se era epidemia em 2006, vinte anos depois é o que?

 

Tenho pesquisado sobre a tecnosfera e o tanto de doenças emocionais e físicas que ela tem provocado. O narcisismo é uma delas. O mundo industrial fez surgir artificialmente esse novo sistema, um fenômeno criado pelos humanos e que se juntou às demais atmosfera, biosfera e hidrosfera.

 

Os sistemas geofísicos e antropogênicos formam o ciclo da água que evapora da hidrosfera para a atmosfera, condensa e cai sobre a biosfera. O impacto humano então produziu a tecnosfera que passou a interferir e modificar todo o sistema com a queima de combustíveis fosseis. Gases liberados na atmosfera aquecem os oceanos e alteram a vida na biosfera.

 

Atmosfera, biosfera e hidrosfera existem há bilhões de anos na natureza. A tecnosfera há alguns séculos. O termo popularizado pelo geólogo norte-americano Peter Haff, descreve a soma de tudo o que a humanidade construiu para prosperar, desde ferramentas de pedra até data centers, redes elétricas, plantas industriais e lixo acumulado.

 

Diferente das esferas naturais, a tecnosfera tem propriedades devastadoras. Sua massa é estimada em 40 trilhões de toneladas. Isso inclui cidades, estradas, máquinas e até aterros sanitários.  Assim como dinossauros deixaram ossos, nós estamos deixando plástico, ligas de metais raros, concreto, vidro, lixo espacial, objetos que permanecerão milhões de anos no registro geológico.

 

O grande problema é que a tecnosfera está atropelando rapidamente as outras. Enquanto a biosfera evoluiu durante bilhões de anos, a tecnosfera passou a alterar o clima e a biodiversidade com extrema velocidade em poucos séculos. Enquanto distrai com suas luzes e telas, ela segue nos matando.

 

Mas o que tem a ver com o crescimento do narcisismo?  Vários pesquisadores e sociólogos apontam o aumento dos traços e dos transtornos narcisistas à evolução da tecnosfera, especialmente a faceta digital. Ela não mudou apenas o ambiente físico, mas criou uma “ecologia da atenção” que premia comportamentos narcisistas.

 

Na tecnosfera digital, as pessoas são incentivadas a se ver como marcas. As redes sociais funcionam como vitrines onde a imagem é curada para parecer perfeita. Isso alimenta a necessidade de admiração externa, característica central do narcisismo. A aceitação social passou a ser expressa em curtidas, seguidores e visualizações. Isso cria um ciclo de feedback onde o valor passa a depender de métricas de popularidade, incentivando a exibição constante.

 

Os algoritmos são projetados para mostrar o que agrada e a reforçar as próprias opiniões nas bolhas. Isso cria um ambiente autocentrado onde a pessoa raramente é desafiada por perspectivas diferentes. Isso fortalece um senso de superioridade, outra característica narcisista. Além disso, a tecnosfera elimina a espera. A gratificação  instantânea reduz a empatia e a paciência com o outro. O mundo passa a ser visto como um serviço disponível para satisfazer todos os desejos do indivíduo no momento em que ele quiser.

 

Vale dizer que a tecnosfera não cria o narcisismo do nada, mas ela atua como solo fértil para o desenvolvimento dos transtornos que antes seriam contidos pelo convívio físico, social. A tendência é que esses traços narcisistas avancem sem limites. Dentre as consequências, está o aumento da violência contra mulheres. Uma considerável parcela de homens violentos tem ativa vida digital e evidentes traços e transtornos de personalidade narcisista.

 

Hartur

 
 
 

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