A FARSA DO TEMPO, A FARSA DE QUASE TUDO
- Arthur Andrade Tree
- 16 de fev.
- 3 min de leitura

Depois de 35 horas de vôo, chegarei à Tailândia no dia seguinte, dez horas à frente em relação ao Brasil. Mas não só isso. Chegarei em fevereiro de 2569.
A Tailândia utiliza a Era Budista para marcação de tempo cujo cálculo é o Ano Gregoriano + 543 anos. Logo o 2026 tailandês foi festejado 543 anos atrás, 17 antes de o Brasil ter sido “achado” pelos portugueses. Para os meses e dias eles usam o “antes e depois de Cristo” por razões bancárias, comerciais, capitalistas. Para todo o resto, é Buda que vale. Cristo é só pela grana.
A viagem para a Tailândia era um projeto que larguei de mão por pura preguiça – perder 35 horas de vida dentro uma caixa metálica não me agrada, mesmo!! Como sou meio autista, seria uma tortura. Então pensei na Etiópia, que não utiliza o calendário gregoriano. Seria outra confusão. Lá os caras vão festejar 2026 daqui a 16 anos – hoje estão em 2010.
O Nepal também não utiliza o gregoriano. Lá eles estão em 2083, 57 anos à frente. Mas o mais louco é a Coreia do Norte, hoje no ano 115. A contagem lá começou em 1912, ano de nascimento do eterno presidente da república Kim II-Sung. O Irã não fica atrás, lá estão em 1405. Meios autistas affff não suportam.
QUANDO O DIA SEGUINTE COMEÇA NO POR DO SOL DO MESMO DIA
Para países do oriente, o dia seguinte começa no pôr do sol do mesmo dia, em torno de 17h53. Para o ocidente começa à meia-noite e um segundo do outro dia. Para o oriente, o tempo é marcador da fé, das celebrações religiosas. Para o ocidente é marcador do dinheiro, além da fé cristã. Tanto em um lugar quanto outro, a contagem de tempo é uma das mais espetaculares farsas criadas pelos humanos. A mentirada pegou tanto que muita gente acredita que horas e datas são criações da natureza.
No ocidente, a farsa foi montada por um monge católico, Dionísio, o Exíguo (Dionysius Exiguus). Em 525 d.C o padre tentava calcular a data correta da Páscoa. Os anos eram então contados a partir do reinado do imperador romano Diocleciano, perseguidor dos cristãos. Dionísio não queria perpetuar a memória do tirano, então resolveu contar os anos a partir do suposto nascimento de Jesus. Cometeu vários erros de cálculos, imaginou que a data fosse uma mas era outra. Com base em registros de Herodes, estima-se o nascimento na manjedoura entre os anos 4 e 6 antes de Cristo, ou seja, Jesus nasceu antes de ter nascido. Não aguento.
O “a.C” demorou a pegar. O padre morreu sem ver sua ideia apoiada pelo papa Gregorio XIII, em 1582, que corrigiu um erro de 10 dias acumulados em relação às estações do ano. Cerca de 1.200 anos depois dos cálculos errados de Dionysio, o calendário dionysiano que numa canetada virou gregoriano, foi oficializado no Século XVIII quando teólogos precisaram datar eventos da antiguidade clássica.
Ao resgatarem os cálculos do velho monge, cometeram outro erro: pularam direto para o ano 1 (sem passar pelo zero). Até hoje isso é um pesadelo para matemáticos que buscam precisão nas contas. Para o tempo dos humanos, o zero não existiu.
Outro problema começou a pairar sobre esse calendário. O “antes e depois de Cristo” era uma linguagem nada internacional, sem qualquer respeito em países não cristãos. Hoje os marqueteiros do tempo deletaram o a.C/d.C e adotaram o EC (Era Comum) e AEC (Antes da Era Comum). Resumindo, Jesus nasceu no ano 1 EC que foi mais ou menos no ano 6 antes de Cristo ou no ano 544 na Tailândia, 1911 antes de Kim II na Coreia do Norte e 621 antes da Hégira, no Irã.
Vamos combinar, com tantas datas e cálculos díspares, duvido mesmo que Jesus tenha sequer nascido.
Mas essa é outra farsa.



Amei a forma leve e divertida que V.Sa tratou dessa milenar falácia cristã...
Muito complicado mesmo, meu amigo. Há tantas farsas que fica difícil acreditar em qualquer coisa .
Parabéns pelo texto.