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VICIADOS EM ÓDIO

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 17 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Mulher flagra namorado assediando sua filha de 11 anos. Ato pensado, coloca sonífero na sua bebida, espera dormir e o mata a golpes de faca. Em seguida o castra e por fim toca fogo no corpo. O caso em Belo Horizonte, esta semana, chocou o país, mas não é o único. Há muitos casos de mulheres que matam companheiros por abusarem das filhas. O abuso sexual é considerado crime hediondo e contra crianças a Justiça age com mais rigor. Mas como ela demora e muitas vezes falha, as pessoas estão justiçando por conta e risco. A mulher de Belo Horizonte agiu com ódio, por vingança, com crueldade. O homem mereceu?


Para a maioria das pessoas, mereceu. Na página do Instagram com os primeiros relatos do crime, até o dia 15 somavam 93 mil curtidas com 13 mil comentários, todos a favor da mulher. Vários advogados e bancas de advocacia se ofereciam para defendê-la de graça. Um dos advogados, dirigente da OAB mineira, figura poderosa no meio jurídico, ofereceu seus caros serviços gratuitamente para a criminosa. O que está acontecendo?


O ódio anda solto e bem alimentado, não se tem mais dúvida. A Justiça é um elefante branco, lento e pesado. Mas o que aparece nas redes sociais é bem mais grave. Equivale aos gritos dos alucinados nas arenas romanas pedindo a morte dos escravos. Aquilo era uma festa macabra. Aquilo era Século I, anos 60 a 80 d.C. Estamos vinte séculos depois e as arenas só mudaram de formato. As redes sociais mais parecem redes criminais, babando sangue. “Ela é nossa heroína, já deram sua medalha?”, “essa mulher me representa, mas eu faria pior”, “tem que matar esses desgraçados, acabar com a raça deles”, os comentários indicavam a plateia enfurecida e adoecida.


OLHO POR OLHO


Um policial militar paulista matou o rapaz com sete tiros numa briga de trânsito, em 2024. Luan Henrique tinha 30 anos. O PM foi preso, libertado e em seguida aposentado. A família decidiu investigar por conta própria e identificou o policial. No dia 17, o pai do rapaz o matou atropelado dentro de um shopping center. Passou o carro duas vezes sobre o corpo para não ter dúvidas. A vingança estava consumada. Nas redes sociais, elogios ao herói, o pai amargurado e agora criminoso. Mas todos sabem que a história não acaba aí. Familiares do policial e colegas de farda vão buscar mais vingança. É o ódio bem alimentado e engordando.


No dia 17, as aulas da UNEB (Universidade do Estado da Bahia) foram suspensas. Não era feriado nem havia festejos na instituição. As aulas foram suspensas por medo. Os tiroteios entre facções e policiais na região poderiam lançar balas perdidas em estudantes, professores e funcionários. Nas salas, todos abaixados. A ordem foi evacuar como um estado de guerra. É o ódio chegando nas portas da elite e repercutindo nas telas dos celulares de crianças e adultos.


DENTE POR DENTE


A menina de oito anos foi encontrada morta estirada no sofá. Do lado o celular e uma embalagem de desodorante. A garota participava do Desafio do Desodorante ou Torneio do Desodorante que envolvia inalar profundamente o aerossol antitranspirante para ficar “alta”. A menina inalou em excesso e teve parada cardíaca. O pai arrasado quer processar a empresa fabricante do negócio, a arma do crime. A ela dedica todo seu ódio. O pai arrasado só não lembra que uma criança de oito anos com um celular é responsabilidade sua, dele. Uma criança de oito anos participando de desafios mortais no TikTok é responsabilidade sua, dele.


A arena romana do século XXI também é alimentada por ódio. As postagens que mais engajam, atraem seguidores, encantam e repercutem são todas trágicas, cruéis. Elas exigem poucas elaborações mentais, basta que provoquem ódio. E o ódio não precisa de explicações, avaliações, análises críticas. O ódio é burro, medíocre e fascinante. Os filmes de ódio são atrativos. As peças de teatro não empolgam se não há ódio na trama. A paz é uma praça bonitinha mas sem graça, logo cansa. O ódio não, ele pede mais ódio. É como droga, vicia e precisa de mais e mais.


Bolsonaro estimulou ódio, Donald Trump estimula, parlamentares estimulam, pastores estimulam. Todos viciados. O resultado disso é a implosão. O planeta como um campo de energia não suporta o ódio na sua atmosfera. É como uma nuvem de tempestade que se forma mansinha, vai crescendo até virar um temporal arrastando todos os seus exércitos nos oceanos, montanhas, rios, vulcões, terremotos e tsunamis.

Fim.   

 
 
 

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