UMA GUERRA APÓS A OUTRA
- Arthur Andrade Tree
- 17 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O diretor Paul Thomas Anderson mastigou durante 20 anos o roteiro de “Uma Batalha Após a Outra”. Em 2005, os Estados Unidos viviam nas turbulências de sempre – dessa vez, guerra do Iraque, Furacão Katrina, imigração descontrolada, saúde deteriorada. George W Bush fracassara na reforma da previdência e apostava todas as fichas na guerra. Mas o povo já não apoiava o conflito. O povo também já não apoiava Bush.
A confiança no governo e no congresso caiu 46%. A criminalização dos imigrantes indocumentados ganhou força. No ano seguinte, 2006, milhões tomaram as ruas de Los Angeles e Chicago contra a aplicação da violência policial sobre os alienígenas indocumentados. O presidente seguinte, Barak Obama, um descendente de imigrantes, expulsou três milhões, um recorde. Mas esses ambientes eram ainda incipientes comparados a 2025. Os Estados Unidos são hoje um campo totalmente minado que até parece filme de guerra.
Com todos esses dados em mãos e mais o testemunho da atualidade, Anderson botou o bloco do seu filme na rua. Em 2023 a Warner Bros comprou os direitos de “Vineland”, de Thomas Pynchon, livro que inspirou o diretor, e abriu o cofre para a produção do filme. O orçamento, um dos maiores de Hollywood, em torno de 130 milhões de dólares, facilitou a contratação de Leonardo Di Caprio, que só trabalha com altos cachês, Benicio Del Toro que concede qualidade política e Sean Penn, um verdadeiro monstro em cena. Uma Batalha já conquistou público e crítica, frequentemente descrito como “o melhor do ano, verdadeira obra prima”.
O filme lida com a tragédia do povo e a existência de um submundo de homens brancos poderosos que se preocupam com "purificação racial" e a criação de mitologias para justificar seus objetivos. Isso reflete o crescimento de grupos de ódio e movimentos nacionalistas brancos. Eles operam nas sombras e são implacáveis até com os seus que alguma vez escorregaram seus pênis para o interior de vaginas pretas. Esses são mortos e incinerados.
ONDE ESTOU?
Assisti no gelado Cine Paseo, devia estar uns 10 graus. Ação do início ao fim. Não dá pra piscar. Anderson é cria da propaganda, sabe como capturar a atenção. O segredo é não deixar espaço para pensar em 2 horas e 42 minutos. Personagens caóticos, revolucionários urbanos contra forças do Estado. Cidades em chamas, imundície, espaços degradados, armas de todos os calibres e lugares, drogas, relações em frangalhos, delações e traições.
Após o filme, errei o caminho de casa, estava em outro planeta, Salvador não tinha esses viadutos, que lugar é esse? O filme transtorna como uma bomba no ouvido. O trânsito da noite parecia cenas de perseguição. De repente surgiram umas dez patinetes elétricas na contramão, todas com seus terríveis faróis brancos acesos. Os revolucionários urbanos da California ocuparam o Rio Vermelho, lá na frente estarão os nazistas do ICE. Comecei a me sentir um imigrante indocumentado. Calma, calma, respira.
A indústria cultural transforma a miséria em espetáculo. Sean Penn deve ganhar alguns milhões de prêmio por seu impressionante nazista. Capaz de Di Caprio também levar o seu. Benício del Toro não terá nada, a ele coube dar o toque latino como um sensei de arte marcial, exótico e excelente. As mulheres ocuparamm seus espaços dignos. Perfídia (Tayana Taylor) e Junglepussy (Shayna McHayle) cheias de fragilidades e ironias humanas. Perfídia significa traição. Junglepussy, buc*ta selvagem. Dá pra rir, dá pra chocar, mas não dá pra chorar. É um filme embrutecido como embrutecido está o ar desse império decadente e contaminado de tanto ódio.



Assisti também — e saí com a mesma sensação: é realmente uma guerra contínua.
Sempre se encontrará uma razão para a discórdia, uma nova bandeira para justificar a velha violência.
Espero que o DiCaprio e o Sean Penn ganhem um Oscar. Espetacular!
Filme fantástico, onde não senti as duas horas e quarenta e dois minutos, exceto pelo frio extremo...
Tudo isso que você falou e uma avalanche de emoções, inclusive o riso!