TRAFICANTE
- Arthur Andrade Tree
- 25 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Era recém chegado na agência quando entrou na redação um cara branco, bonito, terno impecável, logo cercado pela turma. Deve ser algum político. Não resisti e perguntei: quem é?
É o traficante.
Ali caiu como um viaduto o estereótipo do traficante favelado, das esquinas e das bocadas. Fiquei mais de cara diante do que ele disse ao se despedir da galera. “Pessoal, preciso ir, vou pegar meu neto na escola”.
Era um cara normal, tinha até neto! Antes teve filho, filha, família. Fino trato, educado, andava nas altas rodas, frequentava agências de propaganda, redações de jornais, gabinetes de políticos, multinacionais, escritórios de advogados, consultórios médicos, igrejas e falava três idiomas. Tinha seu público cativo conquistado nos anos de estrada e de produtos de qualidade garantida. Um comerciante comum, só que fora do tempo.
As drogas hoje proibidas já foram livres por séculos e séculos. Até início do XX, eram amplamente receitadas por médicos. Cocaína servia como energético. Heroína era remédio para tosse. O ópio, uma das substâncias medicinais mais antigas e mais usadas, era uma panaceia universal – servia como analgésico, controlador de diarreia, supressor de tosse, calmante, sonífero etc. O ópio ainda hoje é usado nos seus derivados morfina e codeína.
DE REPENTE, PROIBIDAS!
Em 1938, um acordo geral entre governos definiu o fim da era das drogas produzidas por farmacêuticos com receitas simples, tipo "feito em casa". Em seu lugar surgiu a era dos medicamentos patenteados com a moderna, civilizatória, gloriosa, pulsante e toda poderosa Indústria Farmacêutica.
O acerto foi tirar o passado de cena. A justificativa era o vício e os males que causavam. Ou melhor, que passaram a causar.
A propaganda massiva fez o resto, cuidou de eliminar a memória das drogas antes saudáveis para colocar em seu lugar o perigo, o vício, os malefícios. Os velhos farmacêuticos ainda fieis ao passado foram logo desqualificados, colocados na ilegalidade, perseguidos e transformados em traficantes.
Em menos de um século, a indústria farmacêutica passou a dominar governos, políticos, médicos, pesquisas científicas e a viciar bilhões de humanos com medicamentos patenteados e sintéticos que fazem as velhas drogas parecerem brinquedos inocentes.
E qual foi a jogada de gênio da indústria? Ter incorporado os componentes ativos das drogas proibidas nos seus medicamentos liberados. Grosso modo, a indústria passou a fazer “lavagem de drogas” como maior traficante do planeta.
Diante disso, traficantes de bocadas, favelas, agências e consultórios são vítimas de um sistema preparado para eliminar concorrentes autônomos e fortalecer conglomerados estruturados na lei. Ah, e os usuários? Eles sempre têm razão.
Hartur A.



Embora o tráfico de drogas ilegais gere tragédias e consequências sociais devastadoras, não se pode ignorar a crescente crise de saúde pública causada pela dependência de medicamentos legalizados, como opioides e ansiolíticos, cujo potencial viciante é explorado por gigantes farmacêuticas. A diferença crucial reside na legitimidade: enquanto o traficante de rua é criminalizado, a indústria opera sob o manto da "ciência" e da lei, utilizando marketing massivo para transformar remédios em necessidade e, frequentemente, em dependência — um reflexo de como a lei pode servir mais ao poder e ao monopólio econômico do que à moralidade ou à saúde pública.
Parabéns pelo seu texto corajoso e necessário.