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NÃO TEMOS ESCOLHAS

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Escolher vem do latim excolligere, junção dos termos ex (para fora) e colligere (juntar, reunir). Excolligere é portanto desjuntar. Em resumo, escolher é equivalente a desunir, separar. As sociedades de consumo adotaram o conceito como símbolo de liberdade, a liberdade de escolha. Desunir e separar são verbos para manutenção de poderes. A sua liberdade de escolha vai garantir o sistema funcionando - escolher para reinar. As mais de dez mil religiões disponíveis para escolhas dos fiéis formam um caldeirão de crenças que podem terminar em luta por poder, guerras. O importante é mantê-las escolhidas, desunidas.

 

Escolher significa separar. Quando alguém opta por algo, quando escolhe algo, descarta outro. Escolher é discriminar, escolher é eleger o que acredita ser o adequado. “Acreditar” está no âmbito das crenças pessoais ou coletivas. E crenças dançam conforme os contextos. No século XIV, a Terra era o centro do universo. Gente morreu na fogueira porque negou essa crença. No século XXI, para alguns, a Terra é plana. Escolhas são baseadas em crenças, logo escolhas vão conforme a maré.

 

SEM ESCOLHAS

 

Tanta gente fala que escolhemos nossos caminhos. O cara rouba porque escolheu roubar, Bolsonaro escolheu ser escroto, Netanyahu escolheu ser o genocida que é. O debate fica acalorado. Somos todos dotados de instrumentos que ajudam a definir nossas escolhas. Afinal, somos seres cujas vidas foram escolhidas por nós, os escolhidos. Não me faça rir! Com isso surge então um ser com status acima dos escolhidos, aquele com poder de escolher os escolhidos. Bolsonaro não tinha outra escolha a não ser a sua própria mediocridade, a sua história. Netanyahu precisa ser o genocida que é para manter seu poder, ou seja, sem escolha.  

 

Eu escolhi fazer esse texto porque não tenho outra escolha. Se não tenho outra escolha, não tenho escolha alguma. Faço por desabafo, por descarga de adrenalina, porque já enchi meu saco de ouvir tanta gente dizer que as almas escolhem as famílias, os corpos e até as atividades humanas. As almas estão assim se divertindo em uma loja de departamentos com várias roupas à disposição para selecionar as melhores. Como almas são consumistas, a gente imagina que elas vão escolher os tecidos da moda.

 

Não existem escolhas no mundo metafísico, cósmico. Estrelas não escolhem suas translações, planetas não escolhem rotações. Vibrações não escolhem potências, células não escolhem ambientes, bactérias não escolhem hospedeiros. Antes de qualquer reação de um corpo, a decisão já havia sido tomada pela inteligência orgânica. Experimentos já comprovaram em laboratórios que os movimentos são posteriores a reações sutis internas, anteriores.

 

A pessoa não escolhe proteger a cabeça em uma queda ou colocar a mãos na frente para diminuir os impactos do tombo. O corpo acha um jeito de separar o terreno de si. Desde quando um suicida escolhe o suicídio ou um viciado escolhe seu vício? Em todos esses casos, é o corpo buscando separar-se da existência por completa falta de saída. Escolher é separar as opções e experiências conforme interesses e dogmas. É praticamente impossível viver nas sociedades de consumo sem os processos de separação, de escolhas. Ou seja, não temos escolhas de viver sem escolhas, sem nos separar.  

 

Será?

 

 

 
 
 

1 comentário


Lucia McAloon
05 de out. de 2025

É um assunto para se pensar. Interessante seu ponto de vista e pode fazer sentido.

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