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O FUTURO É A DIVERSIDADE

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 2 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 3 de abr. de 2025

As primeiras duas décadas do século XXI já são marcas do passado. Estamos nas portas de um mundo brotado da ficção. Quem não se adaptar, será devorado.


Fernanda disse aos pais que a partir de agora passaria a ser Thiago.

Rafael justificou que não havia escolhido o nome e por isso decidiu substitui-lo por Amanda. Thiago tem 12 anos, Amanda tem 13. Ambos estudantes de colégios de classe média. Ambos decidiram mudar de nome e de gênero, mas manter o sexo original. As crianças transgêneros e não binárias da era digital estão virando pelo avesso a cabeça das famílias analógicas.

 

O fenômeno é mundial. A ciência busca explicações racionais para essa revolução, uma delas seria a exposição da mãe a certos hormônios durante a gestação. Outra seriam características cerebrais próximas do gênero que as crianças se identificam. Mas pesquisadores já admitem um outro caminho: um componente inato, desconhecido, indecifrável, que leva o jovem a ter forte convicção sobre o gênero. A identidade é uma característica profunda e não uma “escolha”. Esse é o novo mundo.


Pessoas trans se identificam com um gênero diferente do que lhes foi atribuído, mas muitas vezes dentro do binário (homem-mulher). Pessoas não binárias não se limitam a "homem" ou "mulher", podendo ter identidade fluida ou neutra.


Algumas crianças chegam a experimentar sofrimento significativo (disforia) pela incongruência entre corpo e identidade. Mas ao contrário do que algumas famílias desses tempos digitais imaginam, elas não são produtos das redes sociais, TikToks, da deepweb ou dos canais de pornografia. Elas existem há milênios.


TRANSGÊNEROS E NÃO BINÁRIOS HÁ MAIS DE 4.000 ANOS

 

Os Hijras, na Índia, são uma comunidade tradicional de pessoas intersexo, trans e eunucos, reconhecida há mais de 4.000 anos em textos do Mahabharata.  Meninas com identificação com o masculino ou meninos com rejeição aos papéis masculinos, eram levados para essas comunidades. Em 2014, a Suprema Corte de Justiça do país definiu os hijras como pertencentes ao "terceiro gênero", tornando a situação indiana única na história da antropologia.


O termo Two-Spirits (Dois Espíritos) era usado por muitas tribos da América do Norte para pessoas que “incorporavam” espíritos masculinos e femininos. Essas crianças eram criadas como curadoras, líderes espirituais ou conselheiras. Os Navajos as chamavam de Nádleehé, os Lakota, de Winkte.

 

Na cultura aborígene de Samoa, crianças “Fa’afafine” não binárias eram naturalmente aceitas pelas famílias como um terceiro gênero. Crianças tailandesas desde o século XV, com comportamentos associados ao gênero oposto, eram celebradas nas comunidades. Assim como crianças “Muxe”, do México e  as “Sekratas”, de Madagascar, eram associadas a poderes espirituais da mesma forma que os “Quimbanda” em culturas africanas e afro-diaspóricas. Na Roma Antiga, crianças Gali cresciam como seguidoras da deusa Cibele, muitas vezes como eunucos – pessoas com condição física-corporal (castradas), que podem ter qualquer identidade de gênero.


REPRESSÃO CRISTÃ

 

A diversidade de gênero não é fenômeno novo, mas parte da experiência humana. A maioria das culturas ancestrais tinha espaço para crianças que não se identificavam com o gênero atribuído ao nascer. A colonização e a imposição de valores cristãos reprimiram essas tradições.

 

Invasores europeus consideravam essas identidades como “pecados contra a natureza”. Leis coloniais criminalizavam comportamentos de “gênero não conformes”. Missões religiosas impunham conversão binária e quando não conseguiam, obrigavam a trabalhos forçados, torturavam e por fim executavam em praça pública.

 

Crianças indígenas e africanas eram arrancadas de suas famílias acolhedoras e colocadas em escolas missionárias, obrigadas a adotar nomes, roupas e comportamentos "adequados". Rituais de passagem e tradições que reconheciam gêneros diversos eram perseguidos e proibidos.  Apesar da violência, muitas comunidades preservaram suas tradições de forma clandestina, e hoje há um movimento global de reafirmação dessas identidades.

 

MUNDO DIGITAL

 

As redes sociais têm impacto profundo na visibilidade e expansão desses grupos. Termos como "não binário", "gênero fluido" e "agênero" se popularizaram com plataformas como TikTok, Instagram, Tumblr e YouTube. Pessoas que não se encaixavam no binário homem-mulher puderam se reconhecer em discussões online.  Séries como Steven UniverseThe Owl House e Heartstopper introduziram representações positivas. Celebridades assumidas como Sam Smith, Demi Lovato e Janelle Monáe trouxeram a discussão para o mainstream.

 

O jornalismo independente amplificou vozes não binárias e trans na análise política e cultural. A pressão online provocou vários avanços. Países progressistas estabeleceram políticas de inclusão com adoção, por exemplo, de documentos com gênero neutro. Argentina, Canadá, Alemanha, Holanda são alguns exemplos.


Linguagem inclusiva, pronomes neutros e opções além de "homem-mulher" em formulários se tornou comum em empresas e instituições. Campanhas de ativismo ganham força digitalmente. Seria um novo mundo se não houvesse a sombra da violência sobre esse quadro futurista.

 

As redes sociais abriram espaços para novos tipos de violência e discursos de ódio em plataformas como Twitter (X) e YouTube. Instagram e Facebook passaram a censurar conteúdos LGBTQIA+ chegando a remover posts com palavras como "trans" ou "não binário".


DESAFIOS PARA OS ADULTOS 


Os pais não têm noção de como lidar com filhos trans ou não binários. As escolas são desafiadas também a lidar com esses adultos desconfortáveis, assustados ou mesmo hostis. O discurso é que essa “moda passageira” é influência da internet e a criança está apenas confusa. Outro comum é que a escola está doutrinando seus estudantes. Alguns pais chegam a ameaçar com ações judiciais, campanhas de difamação e até transferência do filho. No Brasil, em passado recente, ocorreram episódios de pais invadindo reuniões escolares para protestar contra a “ideologia de gênero”.

 

Por medo de polêmica, algumas instituições ignoram a identidade e  forçam o estudante a se conformar com o gênero original. Professores sem preparo minimizam o sofrimento da criança com a justificativa “é só uma fase”. Há também casos de violência institucional quando escolas expõem o aluno à família, contra sua vontade, colocando-o em risco.

 

Escolas progressistas buscam fugir desse modelo e passam a adotar o acolhimento. Muitas já incorporam terapeutas, psicólogos e psiquiatras nas suas equipes. Estão convencidas de que não basta mais transmitir conhecimentos e oportunidades de convivência, mas oferecer suportes emocionais e visões críticas sobre a realidade.

 

EXAUSTÃO

 

A humanidade entrou em exaustão. Apesar dos evidentes avanços tecnológicos, a concentração de riqueza nunca foi tão grande, a degradação ambiental ameaça o futuro de todos, a polarização política aumenta a instabilidade global e o capitalismo gera exploração e crises cíclicas.

 

Estamos num ponto de virada? Alguns argumentam que o modelo atual é insustentável e vai ruir inexoravelmente; outros acreditam que a adaptação e a inovação podem corrigir os rumos. Cansados dos mesmos e inúteis discursos, crianças e adolescentes entram na luta a seu modo com mudança de paradigmas, de modelos familiares e das relações com humanos, animais e o ambiente. O futuro é a diversidade. E isso, acredite, não tem volta.

 
 
 

1 comentário


Bianca Colacippo
15 de abr. de 2025

Incrivel!! Não sabia sobre essa história no Oriente, mas também já era de se imaginar, já que lá as pessoas valorizam as emoções e a dimensão espiritual e não aparências com as quais os gêneros dialogam. Muito bom esse texto!

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