E A GREVE DE FOME CONTRA A FOME?
- Arthur Andrade Tree
- 18 de abr. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 19 de abr. de 2025

A fome é degradante. Famosas greves de fome nunca tiveram a força de evitar a escassez no mundo, ao contrário, as validaram, validaram a fome. Greves de fome existem porque afinal existe a fome.
Ao contrário de servir de libelo contra a degradação humana, esse tipo de greve coloca a miséria como ferramenta de poder para rodar o sistema que deveria combater. A contradição é ainda maior quando a greve é feita por alguém de esquerda cuja pauta ou uma delas é justamente acabar com a fome.
Como é possível não perceber que greves desse tipo elevam a fome a um patamar de estrela e não de vergonha? Fome massa de manobra, fome para chamar atenção, fome para estimular a comoção, fome para obter ganhos pessoais ou de grupos. Não há como concordar.
Gente que um dia comeu papelão para sobreviver sabe o que é fome. Isso me leva a concluir que faz greve de fome quem efetivamente nunca passou fome.
Mais de 700 milhões passam fome no mundo. Por ano, nove milhões morrem segundo a FAO/ONU. No Brasil, ao menos três milhões ainda vivem em insegurança alimentar. Não há como transformar isso em vitrine política.
O deputado Glauber Braga (Psol) acaba de sair de uma greve de fome de oito dias com os braços para o alto como vencedor. De que? Seu mandato ainda está sob risco, a trégua de dois meses não garante nada. A trégua foi a forma de o congresso neutralizar o parlamentar. E só. Glauber fez greve com suporte médico, isotônicos, ar condicionado e muita mídia. Oito dias.
GREVES FAMOSAS
Em 2007, o deputado Chico Alencar (PSOL RJ) fez greve de fome por sete dias em protesto contra o aumento dos próprios salários dos parlamentares. O aumento foi aprovado.
O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) aderiu a greve de fome em 2016 contra o impeachment de Dilma Rousseff. A greve com outros militantes durou alguns dias e como se sabe, não impediu o golpe na presidenta.
Em 2005, durante o escândalo do Mensalão, José Genoíno (então presidente nacional do PT) fez greve de fome de 11 dias em protesto contra as acusações. Foi hospitalizado, renunciou à presidência do PT e acabou condenado em regime semiaberto.
O Padre João (PT-MG), deputado estadual em Minas Gerais, fez greve de fome, em 2019, contra a reforma da Previdência proposta pelo governo Bolsonaro. A proposta foi aprovada.
INSTRUMENTO BIZARRO
Greve de fome é um instrumento bizarro de luta. Não há como aplaudir essa forma de chamar a atenção e comover a opinião pública. O que me comove é a fome real de crianças, idosos, pessoas desamparadas, todas invisíveis, e não há qualquer greve de fome em defesa delas.
Além do mais, greves de fome prejudicam o grevista, maltratam seu corpo, seu sistema neurológico, seus rins, seu cardíaco. Jejuns feitos em ambientes tóxicos como o Congresso deixam no corpo as energias mais nefastas. Greve de fome é resultado da ignorância, do descaso e desrespeito ao próprio corpo e do desconhecimento completo de como ele funciona.
Glauber e outros fizeram suas greves sob holofotes. Depois delas, saíram direto para os melhores hospitais e logo tiveram à disposição mesas fartas de preferência distantes dos famintos, esses sim, em degradante estado de greve sem fim.



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