DOENÇA COMO FALTA DE HIGIENE
- Arthur Andrade Tree
- 28 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

A ficha cai quando percebe-se a vida merda que leva, a relação abusiva, tóxica, quando se enxerga o ambiente nocivo em que afundou o corpo. É quando toma pé da falta de higiene emocional, psíquica, da falta de higiene ambiental, alimentar e até corporal em que viveu todos esses anos.
Quando a namorada do amigo entrou no quarto dele – que vivia trancado - ficou pasma. O colchão no chão, o lençol com manchas de barro, teias de aranha nos tênis ressecados de lama velha, o travesseiro com a fronha de um ano de uso. Ela me chamou e mostrou. O que é isso?
Esse amigo morava comigo, conversávamos sobre política, sobre viagens, sobre trabalho. Ele engenheiro de obras, metia a mão na massa. Até que um dia operários folgaram todos os parafusos dos pneus do seu jipe. Uma das rodas soltou no asfalto, por sorte em baixa velocidade. Dá pra imaginar o tipo de relação que ele tinha com esses trabalhadores.
Quando a ficha dele caiu (se caiu) era tarde – já estava em processo avançado de depressão. Outro dia o vi andando lentamente e descalço em um shopping center de Salvador.
A imensa maioria das doenças é resultado dessas faltas de higiene. A sujeira ambiental é dramática, mas a emocional é fatal. Dela surgem enfermidades cada vez mais complexas. O corpo não suporta a pressão da tristeza, da indiferença, dos abusos, dos assédios. Sem compreensão e sem atitudes, o organismo capitula e grita. Explodem então o câncer, as síndromes, as depressões, as feridas, as chagas e muitos outros gritos de socorro.
A falta de compreensão sobre esses gritos do corpo leva cada vez mais pessoas aos hospitais, a médicos assustados, exaustos com suas vidas no limite, com seus medos e suas decisões cada vez mais dependentes das máquinas de procedimentos. São orientados pelas escolas a pedir exames dessas máquinas para garantir diagnósticos. Sequer olham para o paciente, sequer perguntam como têm dormido ou com são suas fezes.
Essa é uma doença sem cura, essa outra é hereditária, também sem cura. Mas essa, infelizmente, é genética. As doenças estranhas eles chamam de síndromes e discutem – quando discutem – formas de tratamento com base no combate.
Vamos combater essa doença, não se preocupe, acalmam o paciente que acredita vir a ser salvo por uma saraivada de tiros químicos, bombas de rádio e várias cirurgias. A cura da medicina convencional é feita na base da guerra, do confronto.
Virus e bactérias, personagens produzidos pelo corpo, são inimigos invasores. Precisam ser eliminados. O corpo precisa ser eliminado para seu próprio bem.
Meu pai teve um câncer. Os médicos diziam que era preciso retirar tumores espalhados pelo organismo. Retalharam meu pai como um boi no açougue. Até o olho tiraram dele. Na época a família achava que tirar órgãos ajudaria o corpo sem órgãos a ser curado. Se é pra salvar, tira tudo doutor. Meu pai não morreu do câncer, foi morto por bisturis e bombas de rádio.
Uma amiga perdeu os linfonodos, retirados numa cirurgia para mitigar suas dores no braço. O médico admitiu que não precisaria tirar tudo, bastava uma pequena parte, mas por garantia, melhor tirar tudo. Ele tinha medo de deixar uma parte e as dores voltarem. Médico com medo. Médicos doentes de medo. Doentes curando doentes. Essa conta não fecha.
Apesar de avanços na medicina ocidental, ainda vivemos na idade do bronze ou na idade do bisturi. Ah, mas pode ser necessário como última alternativa, pode-se argumentar. Um conhecido radialista foi diagnosticado com cancer de próstata. A recomendação era retirada do tumor. Abriram, retiraram um tumor e na biopsia... não era maligno, não era nada. Uma cirurgia inútil que o traumatizou. Morreu anos depois de um AVC.
Hospitais são lugares tóxicos, ambientes frágeis e sem higiene emocional. Entrar em um, mesmo como visitante, é estar sujeito a um oceano de medos, angústias e possíveis esperanças. Algum paciente muito contaminado por ambientes estragados, como frutas apodrecidas, não resistirá aos bisturis. Cirurgias podem, sim, salvar pessoas que querem ser salvas a todo custo. Sem essa vontade, nada adianta.
Dados recentes indicam hospitais no Brasil como centros de mortes, com cerca de cinco milhões de óbitos por ano, quase seis vezes mais que a violência urbana, o crime e as guerras juntos. No mundo não é diferente. Isso não deveria ocorrer, tanto que a OMS tem proposto novos procedimentos para mudar esse quadro de infecções hospitalares e erros médicos. Há uma esperança no fim do longo túnel de dores.
Enquanto isso, os ambientes seguem com suas higienes comprometidas, suas sujeiras nas relações, suas imundícies na falta de respeito, nos assédios, nos abusos. Com ambientes contaminados por ganância, individualismo, desatenção, alimentos tóxicos e baixo astral a cura sempre será meia boca.
Mas aí, em algum momento quando a ficha cai e vem a revolução da auto descoberta, prepare-se para correr pro abraço.
Hartur



Arthur, seu relato é muito forte e nos faz pensar que a saúde começa muito antes de chegarmos ao hospital. Vejo sua reflexão como um convite para 'limparmos a casa' primeiro, assumindo o protagonismo da nossa higiene mental e física. Acredito que esse cuidado não exclui a medicina, mas a potencializa: quando fazemos a nossa parte no dia a dia, até o suporte técnico dos médicos e a tecnologia se tornam aliados mais eficazes.
Sobre exames médicos, desnecessários, um famoso medico da Internet, ensina que ao se fazer uma biopsia para indicar se o câncer é maligno, é que se está "abrindo a porta" para a metástase...