COMO O MONOTEÍSMO ATRASOU O PROCESSO CIVILIZATÓRIO
- Arthur Andrade Tree
- 7 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de abr. de 2025

Diante de um Moisés monoteísta e fanatizado, o longevo Ramsés II fez um alerta premonitório. Seu deus único será um déspota implacável. “O poder antes dividido entre vários deuses estará concentrado em apenas um. Será o fim da paz. O monoteísmo irá acabar com a diversidade”, previu o faraó.
Moisés deu as costas ao monarca e comandou um exército de fanáticos durante 40 anos, queimando aldeias e matando seus habitantes politeístas. Foi o primeiro genocídio em nome do deus único.
Durante mais de 10 mil anos, o politeísmo vigorara em relativa paz, todos atendidos por seus deuses. Ao se instalar há apenas 3 mil anos, o monoteísmo transformou a relativa paz em estado de tensão. Afinal, déspotas são mantidos no poder pela força do medo. O monoteísmo abriu caminho para uma sequência de tragédias históricas, séculos de domínio patriarcal, nazismo, várias guerras e o capitalismo.
No trajeto de destruição, atrasou a evolução da humanidade. O que era tolerado, virou intolerância. O que era normal, virou ofensa. A nudez virou pecado e a diversidade foi substituída pela unidade, o poder único, o patriarcado. “Somos todos um” é um desses mantras que buscam reforçar a ideia de unidade onde não existe. “Somos um” apenas sob o cetro do patriarca, somos todos consumidores.
NATUREZA É DIVERSIDADE
Cores, cheiros, folhas, animais, estrelas, planetas, humanos. Não existe uma folha igual à outra nem um fio de cabelo igual ao outro. Até os faraós e à queda do último templo pagão, a diversidade era naturalmente aceita. A cor da pele, por exemplo, não era impedimento para as relações até ser revelada a cor e o sexo de Deus, branco e masculino. O seu “filho” chegou a ser retratado com olhos azuis.
Nesse ambiente, a tolerância em relação às identidades de gênero foi abalada. Muitas culturas que reconheciam além do binário masculino-feminino foram reprimidas pelas religiões monoteístas e pelos sistemas de poder patriarcais.
Na Mesopotâmia e Suméria antes de 2.000 a.C, pessoas hoje identificadas como não binárias ou transgêneros, eram os “Gala”, sacerdotes que performavam mantras em dialeto feminino para a deusa Inanna.
Na Índia Antiga (antes de 500 a.C.) os "hijras" (terceiro gênero) já eram mencionados em textos védicos e no Mahabharata. O Kama Sutra (século III d.C.) menciona pessoas de "terceiro sexo" (tritiya-prakriti).
Culturas indígenas das Américas reconheciam "Dois-Espíritos" (Two-Spirit), indivíduos que combinavam papéis masculinos e femininos. Na Mesoamérica, os "Xochihuah" (astecas) e os "Quariwarmi" (incas) tinham papéis ritualísticos de gênero não binário.
Na Grécia Antiga, figuras como Hermafrodito e os "Galli" (sacerdotes eunucos de Cibele) desafiavam o binarismo.
O imperialismo e a colonização dos europeus suprimiram culturas com concepções fluidas de gênero. As leis patriarcais (Código de Hamurábi), as romanas e a cristianização (séculos IV-V d.C.) intensificaram a patologização de corpos e identidades fora do binário. A colonização europeia depois do século XV disseminou ainda mais essa repressão.
VIOLÊNCIA EM NOME DO PAI
As religiões monoteístas tiveram um impacto negativo nas sociedades ao longo da história. Embora também tenham promovido valores como caridade e comunidade, sua influência legitimou opressão, violência e retrocessos culturais e científicos.
Com o patriarcado institucionalizado, a submissão da mulher ao homem foi justificada por passagens bíblicas (Gênesis 3:16, Efésios 5:22-24).
A homossexualidade foi criminalizada (Levítico 18:22, Romanos 1:26-27), e identidades não binárias apagadas.
A virgindade foi santificada e o corpo feminino passou a ser visto como fonte de pecado (doutrina do pecado original ligado a Eva). Culturas politeístas e tradições espirituais não cristãs terminaram demonizadas e exterminadas, com a conversão de celtas, povos germânicos, africanos e nativos americanos.
Bibliotecas foram queimadas e intelectuais perseguidos. Templos pagãos como o Serapeu, de Alexandria, acabaram destruídos e filosofias greco-romanas (neoplatonismo, gnosticismo) suprimidas, canceladas.
O monoteísmo apagou divindades femininas como Ishtar, Ísis e Athena substituindo-as por um panteão masculino Deus Pai, Jesus e Espirito Santo.
As Cruzadas (séculos XI-XIII) massacraram muçulmanos e cristãos ortodoxos em nome da "recuperação" da Terra Santa. A Inquisição (séculos XII-XIX) torturou e executou "hereges", bruxas majoritariamente mulheres e cientistas. Com a justificativa religiosa para escravidão ("maldição de Cam"), povos nativos foram comercializados e exterminados para "salvar suas almas".
A Bíblia foi usada para defender a escravidão (Efésios 6:5, Levítico 25:44-46) enquanto a Igreja acumulava riqueza e pregava pobreza. O Vaticano e outras instituições passaram a acumular terras, ouro, poder político e a difundir a ideia de que "os pobres são bem-aventurados" (Mateus 5:3), para pacificar revoltas sociais.
A repressão religiosa levou ao medo do inferno e controle social através do terror, a punição eterna. A liberdade de pensamento foi reprimida, qualquer dúvida ou questionamento era tratado como "pecado contra o Espírito Santo" (Marcos 3:29). Por fim, a sexualidade natural e autonomia feminina foram estigmatizadas por séculos.
CRESCEM OS ATEUS
Mudanças significativas são ensaiadas desde os anos 60. No século XXI, parecem não ter retorno. Um dos sinais é o crescimento de ateus, agnósticos e pessoas não religiosas no mundo, especialmente em países desenvolvidos e em nações com declínio da influência religiosa tradicional.
A população não religiosa (ateus, agnósticos e sem religião) deve chegar a 19% da população global, 1,5 bilhão até 2050. A China tem 80% de não religiosos ou ateus, a República Tcheca com 78% de não religiosos, é o país mais secular da Europa. No Japão, 70% sem afiliação religiosa – xintoísmo e budismo são mais culturais do que devocionais. A Suécia tem alta secularização, com 65% de não religiosos, os Países Baixos, França, Austrália e Coreia do Sul chegam a 50% sem religiões.
Na Europa Ocidental a queda avança 2% ao ano. Nos Estados Unidos, pessoas sem religião (Nones) eram 3% em 1950 e 26% em 2023. No Brasil, saltou de 4% em 1970 para 15% em 2023, segundo IBGE. O secularismo avança no Brasil, Uruguai e México com aumento de não religiosos. A geração de jovens (nascidos após 1997) é a menos religiosa da história.
Acesso à educação e ciência e os vários escândalos nas igrejas e templos estão entre as causas para essa queda das religiões. A internet, a globalização e as mudanças culturais com a valorização do secularismo e os direitos LGBTQ+ são outras causas para essa mudança de paradigmas. O retorno à diversidade é inexorável,mas as resistências serão poderosas. O custo será alto, mas a extensão disso só os deuses podem saber.



Na minha percepção temos buscado uma conexão com a espiritualidade, fora das religiões e dos seus controles.
E a tendência atualmente é o rápido crescimento da taxa de 15% de pessoas sem religiosidade definida?
E o provável aumento do número de pessoas que professam a fé, nas religiões de matrizes afrcanas é relevante?