ASSALTO NO PÓS DILÚVIO
- Arthur Andrade Tree
- 21 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jun. de 2024

A aeronave transportava R$ 30 milhões numa operação sigilosa. O pouso que seria em Canoas foi redirecionado para o Aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul. Dinheiro transferido, o carro forte estacionado na pista foi cercado por homens vestidos de policiais federais. Estava deflagrado o maior assalto pós tragédia climática no RS, no início da noite de terça, 18.
Armas de grosso calibre, dignas de filmes de ação, pipocaram tiros que mataram um policial militar do RS, destruiram vidraças e equipamentos de lojas nas imediações. Um falso federal foi morto. O grupo levou metade do dinheiro, diz a imprensa local. Ninguém sabe a origem nem o destino, se era operaçao bancária ou recursos de doações para os desabrigados das inundações. O aeroporto foi fechado pela Polícia Federal e reaberto no final da manhã de quarta-feira, 19. O governador do RS Eduardo Leite lamentou a morte do policial e determinou rigorosa apuração.
A gente pode soltar a imaginação, ai está o roteiro de filme de grandes assaltos. Quando se trata de muito dinheiro torço pelo assalto, mas, nesse caso, desconfio do roubo. O sigilo da operação é compreensível diante do volume de dinheiro, mas o redirecionamento da aeronave de Canoas para Caxias do Sul é estranho. Ou melhor, compreensível do ponto de vista dos assaltantes. O aeroporto de Canoas é área militar da FAB. Qualquer bandido com mínimo de noção sabe ser barril dobrado encarar milicos. Já o aeroporto de Caxias do Sul é administrado pela devastada prefeitura do município que não vê luz do sol há semanas.
CHUVA, SUOR E TRISTEZA
Caxias do Sul só chove. Dia e noite. Moradores estão desolados, tristes, sem futuro. Tem gente que não dorme há dias e dias. Empresários não vendem nem parafuso, nem óleo, nem par de sapatos. O município está falido, como a maioria dos municípios gaúchos. Com o aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, fechado, Caxias do Sul virou uma das opções de pousos e oportunidade de alguns trocados. Então ocorre o assalto. Como os caras sabiam do redirecionamento do vôo, do horário, do pequeno efetivo de segurança e da quantidade de dinheiro?
O Salgado Filho é administrado pela suiça Fraport, de Frankfurt que agora administra Canoas, emergencialmente. As obras de recuperação das pistas do aeoroporto de Porto Alegre destruidas pela chuva e pelas águas do Guaiba vão exigir recursos que não estavam nos planos da empresa. Ela alega que inundações não estão previstas no contrato de concessão. A seguradora alega o mesmo. Os documentos mostram o contrário, inundações são efeitos da natureza, previstos nos contratos. Sugeriram que ela desistisse do contrato. Ela garante não abrir mão. O governador do PSDB, privatista e defensor do estado mínimo, quer ajuda do governo federal de R$ 1,1 bilhão para as reformas.
Dinheiro, fonte do bem e do mal. O momento para perder são as crises. O melhor momento para ganhar são as tragédias. Enquanto a maioria do povo gaúcho sofre seus mortos e suas perdas, uma minoria fatura em negócios e roubos. Lojas invadidas por ladrões que levaram sobras de equipamentos e miudezas, caminhões com doações atacados nos trajetos, cargas de água mineral desviadas, roupas surrupiadas por gente infiltrada entre os voluntários. Dinheiro doado por todo o país que foi parar em contas bancárias nada a ver divulgadas na internet.
A ânsia em ajudar os desesperados cegou o senso crítico de muita gente. Com tanta cegueira, os aproveitadores entraram em cena. Por fim, o roubo providencial que irá amenizar prejuizos de gente poderosa. Sim, porque um roubo cinematográfico desse, com SUVs pretas, logos da PF, fardas militares, planejamento de assalto, logística de fuga e armamento sofisticado requer investimento de alguns milhões de reais. Ou de dólares. Agora é só deixar a imaginação voar e todos os desconfiômetros ligados.



Comentários