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A MORTE DOS IDOSOS DOENTES

  • Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
    Arthur Andrade Tree
  • 6 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 23 de mar. de 2025

A mãe de uma amiga pede a morte todo dia. Chegou aos 97 sem enxergar, sem ouvir como antes, sem o paladar de antes. A existência virou um estorvo, mas sua saúde não lhe permite morrer. O intestino funciona, o fígado, o coração é uma fortaleza. Mas ela cansou. No mês passado, teve um mal estar, parecia sua hora, mas a outra filha, médica, a levou às pressas ao hospital.  “Deixe minha mãe morrer”, implorou minha amiga.  Depois dos procedimentos, retornou para casa no dia de completar 98.

 

A relação das famílias com a perspectiva da morte dos idosos é um teste de resiliência às últimas consequências. Quando podem pagar cuidadores, ou colocar em asilos, transferem responsabilidades. Quando não podem...e a maioria não pode, o que fazer? Algumas soluções são como filmes de terror. Assim curioso, fui pesquisar como humanos mundo à fora lidam com seus idosos doentes.

 

CHOCANTE

 

No Paquistão idosos de famílias pobres, em áreas rurais, são lançados nas pistas de velocidade para atropelo e morte. Os familiares então cercam o carro e exigem indenização e responsabilidade pelo enterro. Estão armados de paus e machados.

 

Na Índia vizinha, em áreas rurais, idosos são abandonados como bichos. A justificativa é a incapacidade de cuidar. Em casos extremos, praticam o thalaikoothal (eutanásia forçada) que envolve banhos gelados, excesso de medicamentos e ingestão de líquidos até a morte.


NO JAPÃO, CARE KILLING

 

No Japão, a cada oito dias uma pessoa idosa é morta por um membro da família. Isolamento social, pressão emocional e econômica sobre cuidadores familiares são as causas.

 

O país vem enfrentando uma crise de "Care Killing" – familiares exaustos tiram a vida dos parentes que cuidam. Essa situação se intensificou com o isolamento na pandemia de COVID-19.

 

Entre 2011 e 2021, foram registrados 437 casos de assassinatos ligados à fadiga do cuidador, aponta estudo da Universidade Nihon Fukushi. Cônjuges e filhos adultos são os principais responsáveis, seguidos de netos, irmãos e outros parentes. Muitas vezes os cuidadores, também idosos, carregam seus próprios desafios físicos e psicológicos.

 

Na África a situação é igualmente chocante. No Quênia em algumas comunidades rurais, mulheres idosas são acusadas de bruxaria e mortas por familiares ou membros da comunidade. Essas acusações muitas vezes estão ligadas a disputas por terra ou recursos das idosas. Homens idosos são mortos por trazerem azar para a comunidade.

 

Na Tanzânia os velhos são acusados de bruxaria e mortos ou expulsos de suas comunidades. Na Nigéria, são abandonados no deserto ou mortos acusados igualmente de bruxaria.

 

No Brasil, mais de 100 mil morreram de desnutrição entre 2000 e 2024. Entre alimentar uma criança e um idoso, preferiam a criança.

 

Outros 100 mil morreram de covid-19 por ignorância, negacionismo e desprezo mesmo.  Mortes de idosos envolvem ainda tortura, sufocamentos, abusos sexuais e violência policial.

 

Há mortes provocadas em asilos. Há casos de familiares encontrarem seus idosos desnutridos, sem fraldas, sujos e inchados pelo tempo em que ficaram amarrados.

 

A longevidade sem saúde é o próprio inferno.

 

Um relatório da Age UK, indica que mais de 2,7 milhões de idosos com mais de 65 anos sofrem algum tipo de abuso anualmente no Reino Unido.  A maioria envolve negligência, abandono,  mas há relatos de homicídios cometidos por familiares ou cuidadores. Estresse, problemas de saúde mental do cuidador e conflitos familiares acabam em crimes.

 

Na Itália com uma das populações mais envelhecidas da Europa, idosos são igualmente mortos por familiares estressados diante da falta de perspectiva de reversão de doenças degenerativas, como Alzheimer.  

 

A humanidade vive o paradoxo do aumento da longevidade em corpos sem saúde. Medicamentos prolongam vidas sobre macas, às vezes vegetativas. Há uma indústria farmacêutica pulsante para o segmento e um mercado de trabalho crescente para cuidadores. O corpo precisa ser explorado pelo sistema até sua última gota.

 

Conheci um idoso admirável que depois de dois meses preso a uma maca, pediu aos filhos para desligarem os aparelhos da UTI. Os quatro filhos médicos se reuniram com o hospital, assinaram os termos, e desligaram.

 

EUTANÁSIA?

 

O que fazer quando não há mais esperanças? O termo eutanásia vem do grego “eú” (bom, boa) e “thanatos” (morte). Na Grécia antiga, o conceito já era discutido por filósofos como Platão e Sócrates, que defendiam a morte sem dor preferível a uma vida de sofrimento.


Alguns países da Europa e Oceania autorizam a eutanásia ou suicídio assistido para pacientes sem perspectivas de melhora.  

Holanda, Belgica, Luxemburgo, Suiça, Espanha, Alemanha, Nova Zelândia e Austrália o suicídio assistido já é regulamentado. Em Portugal, um dos países mais católicos do mundo, o suicídio assistido foi aprovado pelo congresso mas falta regulamentação completa. A Colômbia é o único país da América do Sul com eutanásia descriminalizada desde 1997, mas só regulamentada em 2015.

 

No Canadá é permitido e nos Estados Unidos, o suicídio assistido é legalizado em apenas nove dos 50 estados: Oregon, o primeiro, em 1997, seguido de Washington, California, Colorado, Havai, Nova Jersey, Maine, Vermont e por último Novo México, em 2021, no fim da pandemia. Nos demais 41 continua proibido.

 

O SOFRIMENTO PURIFICA?

 

As religiões, inclusive o budismo e as afro-brasileiras, se opõem à eutanásia - consideram a vida sagrada e apenas uma entidade divina (Deus, Alá, etc.) tem o direito de decidir sobre a morte. Além disso, muitas veem o sofrimento como uma provação espiritual ou uma parte inevitável da existência humana. 


O mito do sangue e da cruz, do sofrimento como purificação está impregnado nas crenças coletivas. É como se decidissem que somos feitos para o sofrimento, o nosso destino fatal. Uma visão da idade média em pleno século 21. Por isso, não é surpresa que hoje assistimos ao avanço do nazifascismo como religião retornando com toda sua força destrutiva. Precisamos realmente de sofrimento?

Acredito que você também tem a resposta.

 
 
 

2 comentários


Mary Lopes
06 de mar. de 2025

Hoje o que assistimos são velhos que tem uma morte biográfica e ficam por anos a fio esperando a morte biológica. O suicídio assistido é uma forma de permitir que esses 2 eventos ocorram junto. Deveria ser um direito.

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Convidado:
06 de mar. de 2025

Impactada com essas informações. Daí fiquei tentando imaginar o meu fim. Cruz credo!!!! :-(

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