A FORÇA DA MENTIRA E A VERDADE FRÁGIL
- Arthur Andrade Tree
- 10 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de abr. de 2025

O sistema pode criar mecanismos de defesa, checagens, processos judiciais, criar o que for para vencê-las, as fake news não serão derrotadas. Nome novo, fake news é a elevação da velha mentira ao status digital. O termo foi difundido a partir de 2016, na campanha de Donald Trump, nos EUA, toda ela baseada em mentiras. Trump errou? Moralmente, sim, biologicamente e antropologicamente, não.
É chocante, mas a mentira está no DNA humano. Estudos confirmam que a capacidade de enganar está ligada a mecanismos biológicos de defesa desenvolvidos ao longo de milênios. O córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelo controle de impulsos, também é usado para fabricar mentiras convincentes.
O hormônio dopamina (sistema de prazer e recompensas) é ativado pela mentira especialmente quando beneficia o mentiroso. Experiências de neurociências com Ressonância Magnética Funcional mostram que o cérebro trabalha mais para mentir do que para dizer a verdade. A verdade, aliás, é previsível e cansativa.
O sucesso da mentira está justamente em ser imprevisível. Ariano Suassuna brincava sobre a sua ludicidade. A "invenção", dizia ele, é mais sedutora porque liberta a imaginação, como nas histórias de cordel, nas fantasias do bumba meu boi ou nas hipérboles dos causos nordestinos. Por outro lado, a verdade pode ser "chata" porque muitas vezes é cinza, enquanto a mentira é colorida, dramática, libertadora.
EVOLUÇÃO DA ENGANAÇÃO
No processo de evolução, a capacidade de enganar foi essencial para a sobrevivência. Os ancestrais mentiam para evitar conflitos ou obter recursos. Mentiras leves como omitir informações ajudavam a manter alianças sociais. Na sexualidade, exagerar habilidades ajudava a atrair parceiros.
Entre os animais, mentir é sinal de inteligência. Chimpanzés enganam membros do grupo para roubar comida ou evitar agressão. Corvos fingem esconder comida para despistar rivais, polvos mudam de cor para camuflar (mentira visual) e se proteger. A diferença é que os humanos mentem simbolicamente com palavras, histórias e manipulação em larga escala. E mentem desde cedo.
Por volta dos 2-3 anos, crianças começam a testar falsidades como negar que quebraram ou que esconderam algo. As mentirinhas são vistas como sinais de esperteza, inteligência e criatividade. Quantos pais ficam orgulhosos dos seus filhinhos inventivos? Eu já inventei doença para não ir para a escola. Na prova de História, inventei tudo, as maiores mentiras sobre os egípcios. Levei zero pelo conteúdo e dez pela criatividade.
Todas as sociedades humanas têm registros de mentiras, desde mitos até trapaças políticas. Algumas mentiras sociais são universais tipo “Oi, que bom te ver!” Entre jornalistas é comum elogios pela frente e críticas pelas costas, tudo com bom humor. A capacidade de mentir é inerente à cognição humana, somos programados para enganar em certos contextos mas também para detectar mentiras. Geralmente bons detectores são bons observadores, críticos ou também bons mentirosos ou mentirosas.
DESTRUIÇÃO E CONSTRUÇÃO
Ferramenta poderosa, a mentira pode ser usada tanto para a sobrevivência quanto para a destruição. O caso recente das vacinas é um exemplo de capacidade destrutiva. A desconfiança global sobre elas foi gestada em 1998, quando o médico londrino Andrew Wakefield publicou, na The Lancet, estudo sobre 12 crianças com comportamento autista depois de vacinadas pela tríplice viral MMR.
A notícia teve efeitos catastróficos. Seis anos depois, em 2004, revelou-se que o estudo era uma fraude e a matéria, fake news. O médico perdeu o registro, mas já era tarde. A desconfiança nas vacinas estava instalada.
Doenças mortais retornaram por todos os lados. Movimentos anti-vacinas ganharam força nas redes sociais. Então como uma tormenta, a pandemia de Covid-19 escureceu o mundo em 2020. Mais de 18 milhões de não vacinados morreram em consequência das fakes news, sugere a OMS.
No Brasil, das 700 mil mortes notificadas, ao menos 300 mil teriam sido evitadas. Pessoas deixaram de se imunizar por medo de “virar jacaré” ou pegar Aids. O então governo de extrema-direita do país, ao dar voz oficial às mentiras, instalou um clima de desconfiança que será sentido por muito tempo.
DESDE ROMA ANTIGA
Governos autoritários usam as mentiras como armas de poder. O imperador Augusto, na Roma Antiga, usava fake news para difamar e destruir inimigos políticos. Líderes religiosos na Idade Média espalhavam boatos para justificar guerras, como as Cruzadas. O conquistador mongol Gengis Khan mandava espalhar notícias falsas sobre sua selvageria para desmobilizar resistências nas cidades que invadiria.
No século XVIII, Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos, criou jornal falso acusando indígenas de crimes para justificar o extermínio deles. O nazismo usava propaganda falsa para manipular a população. Nos anos 90, “teorias da conspiração” negavam até a existência do vírus HIV. Jornais como o de Joseph Pulitzer, nos EUA, exageravam ou inventavam notícias para vender mais. A ironia é que Pulitzer virou nome de respeitado prêmio para grandes matérias jornalísticas.
A MENTIRA AGREGA, O TEMPO DESMASCARA
Por que a mentira se espalha como vírus e a verdade é lenta como um paquiderme? Um dos motivos é o seu poder de sedução. Ela explora vulnerabilidades humanas desde necessidades emocionais até falhas cognitivas, a ignorância. Promete soluções em um mundo caótico e receita remédios milagrosos que curam tudo, como a cloroquina. Simplifica a realidade e transforma problemas complexos em explicações fáceis - a culpa de tudo é dos comunistas, por exemplo.
Mentiras exploram ainda emoções como o medo, alertando para perigos inexistentes – vacinas têm microchips – que ativam o instinto de sobrevivência. Induzem à raiva com discursos culpando adversários e fazem promessas como “dinheiro fácil” explorando desejos profundos. Não bastasse tantos caminhos sedutores, as mentiras agregam, criando tribos de “esclarecidos” em torno de teorias da conspiração. Por fim, os que espalham desinformação viram verdadeiras estrelas, ganham status de líderes, dinheiro e poder como influencers.
A verdade por sua vez é pesada e cheia de nuances não compreendidas pela maioria. Exige esforço, checagem e pensamento crítico. É menos emocionante, não tem vilões caricatos, nem heróis, nem soluções mágicas. Pode ser ainda dolorosa ao revelar o quanto todos foram enganados e como o mundo é mais complexo do que se pensa. Isso é exaustivo.
A mentira, ao contrário, é insuperável pela sua estética de fácil digestão. As bem construídas costumam ser cativantes com vilões, heróis e dramas de novela. Seduz porque fala mais alto aos cérebros preguiçosos e corações ansiosos. Vencer essa sedução exige determinação, humildade intelectual e coragem para enfrentar a realidade. Na verdade, não é fácil.
Mas existem duas instâncias imunes à mentiras, enganos e histórias ocultas. Esses lugares podem estar maquiados, modificados, transformados, mas suas verdades acabarão expostas. Um desses lugares é o corpo. Ele jamais vai esconder seu desgaste, sua dor física, sua febre, sua agonia. Não há como exibir saúde onde há doença embora haja como fingir doença onde há saúde. Mas por pouco tempo, o corpo logo irá impor sua verdade porque ele nunca, jamais mente. Dele ninguém escapa. O outro lugar em que a mentira se desfaz e a verdade se revela, ainda que séculos à frente, é o implacável e paciente tempo. Dele também ninguém escapa.



Grandes mentiras sempre ocasionam grandes desastres civilizarórios e lacunas irreparáveis... mas os "enganados" preferem não admitir que foram e vão continuar sendo,ignorantes, ingênuos ou qualquer outro nome que queiramos dar, para não revelarem graves falhas cognitivas, preguiça intelectual e carência emocional...