IMORTAIS E LIVRES
Atualizado: 27 de mar.

O sentido da vida é a morte, nada muda esse caminho. Até porque “morremos” todos os dias. A pessoa que você foi ontem não é a mesma de hoje. Durante a noite, cerca de 70 bilhões de células partem e outras bilhões assumem as vagas.
Por minuto morrem 40 mil células da pele ou 50 milhões por dia. Você deve achar isso surpreendente porque ainda não viu nada. Imagine que até 10 Octilhões de átomos abandonam seu corpo todos os dias rumo a outras viagens! O número é gigantesco, 10 mais 27 zeros. Isso pode representar até 100% dos átomos do corpo, ou seja, todos os seus átomos podem abandonar a casa por dia e você nem tá sabendo.
Mas para onde vai esse povo todo? Para o mundo, a terra, as águas, o ar, a atmosfera pela respiração, urina, fezes, suor, cabelo, unhas, descamação da pele. São quase 3,5 quilos de células por dia ou 1,3 tonelada por ano. De células!!
Portanto, a cada ano do ponto de vista atômico, você é uma nova pessoa. Mesmo quando estiver velhinha, seus átomos vão continuar livres deixando a casa para outros chegarem e usufruírem da estadia.
POR TODOS OS LUGARES
Enquanto você existir, átomos que estão no ar, nos móveis, nas plantas, nas paredes entrarão no seu corpo esteja você dormindo ou acordada. Do ponto de vista atômico, você é um motel de altíssima rotatividade. Com um importante detalhe: seu corpo escolhe os átomos em que confiam, independentemente de sua vontade. Você, afinal, não decide nada!
A escolha é altamente seletiva. Ela opera dentro das leis da afinidade atômica e molecular. Não é uma escolha no sentido humano, não há consciência nisso. Mas há uma inteligência bioquímica extremamente precisa que funciona como "filtros", "porteiros" e "transportadores". Eles selecionam quais átomos e moléculas entram na festa, quais são aproveitados e quais descartados. Até no mundo atômico é preciso selecionar quem entra em casa.
Mas os átomos não "chegam" sozinhos. Eles vêm dentro de moléculas (água, aminoácidos, sais ) que interagem com as proteínas do corpo por meio de afinidade química. Sem afinidade não rola. Mas como selecionar se são todos iguais?
Pela história deles.
Embora sejam idênticos, cada história pode ser diferente. Por exemplo, um átomo de carbono no corpo de alguém que vive na metrópole pode ter vindo da queima de petróleo, enquanto o de alguém que vive na floresta pode ter vindo da decomposição de folhas e troncos. A escolha é lógica.
Não tem átomo online, via internet, mas eles se atraem sem muito trabalho. Os átomos que chegam estão nas proximidades, não precisam de longas viagens para encontrar sua alma gêmea. Eles estão nas redondezas no ar, na água, nos alimentos, no solo — e o corpo os captura porque já estão ali de bobeira, disponíveis, abertos e cheirosos.
Como o corpo só captura átomos que já estão em contato físico, imagine passar anos em ambientes hospitalares, clínicas odontológicas, indústrias poluentes, campos de petróleo, áreas de violência, guerras, shoppings centers e tribunais de júri?
Sendo assim, observe a diferença de viver em grandes cidades e em regiões mais remotas. Pessoas que vivem em metrópoles recebem átomos de carbono-14 desses ambientes de poluição veicular, enquanto pessoas de áreas remotas recebem átomos de carbono da queima de plantas. Muito mais chique!
INFINITAS COMBINAÇÕES
Mas aqui está o ponto mais belo: os átomos são imortais. Como não bastasse, são os mesmos circulando pelo planeta. O carbono que hoje está no seu corpo já esteve em dinossauros, em florestas antigas, em vulcões ou em outros humanos há milênios. Também estiveram em corpos de escravizados, em senhores feudais, bruxas queimadas, ladrões crucificados, faraós e menestréis celtas.
O oxigênio que você respira agora foi produzido por algas no oceano ou por árvores na Amazônia. Os átomos de uma pessoa que mora em Tóquio, outra no deserto do Saara e outra em uma aldeia na Papua-Nova Guiné são, em última análise, os mesmos que circulam pelo planeta há bilhões de anos.
Outra maravilha é que seus átomos não são seus. Você os toma emprestados do ambiente por um tempo e depois os devolve para outros utilizarem. Em escala geológica, todos os átomos do planeta já passaram por incontáveis seres vivos.
Todos nós compartilhamos o mesmo estoque atômico. O átomo de carbono que hoje está no seu pulmão pode ter sido, há cem anos, parte do corpo de alguém que amou, sofreu, viveu. E amanhã, esse mesmo átomo pode estar em uma folha, em uma nuvem, no oceano, ou em outro ser humano.
Nesse nível fundamental, a separação entre "eu" e o "mundo" é uma ilusão organizacional, uma bolha de baixa entropia temporária em um universo que, por bilhões de anos, vem misturando e remexendo os mesmos átomos em infinitas combinações.
Hart



Sensacional a analogia do 'motel de átomos', Arthur! É um nó na cabeça pensar que somos uma casa de altíssima rotatividade e que nossa 'identidade' é, na verdade, um estoque emprestado do mundo. Adorei como você transformou biofísica em poesia existencial. No fim, somos todos uma reciclagem de luxo da história do planeta!