CARNE PARA (MUITOS) POUCOS

Um dos símbolos de ascensão social no país está em declínio. A carne já não é mais a mesma. Se no passado ela representava sonho de prosperidade para a base, hoje assumiu seu posto de elite. A carne que falava de fartura e de alegria no churrascão, também fala de exclusão.
Como metáfora, é a representação literal da hierarquia de consumo e de valor dentro do capitalismo. Historicamente símbolo de poder e vitalidade, ela serve como o termômetro para medir a desigualdade.
As carnes de primeira para a elite, o "filé" da sociedade. É o consumo do tecido muscular mais macio, que exige menos esforço para processar. A comida como status e prazer estético.
Para a classe média as carnes de segunda. É o estrato do esforço. São cortes que exigem técnica, tempo de cozimento e tempero para se tornarem comíveis. Refletem a dinâmica da classe média: trabalhar mais para obter um resultado similar à elite.
Para as classes C e D, as carnes de terceira e os miúdos. Aqui está a economia da sobrevivência. Fígado, moela, coração e cortes com muito nervo. É o aproveitamento do que sobra da limpeza das partes nobres.
Por último, os miseráveis com os ossos e carcaças. É o estágio da "biopolítica" pura, quando a carne desaparece e resta o resíduo mineral. Osso não é nutrição, é a tentativa desesperada de extrair sabor de algo que já foi descartado pelo sistema produtivo.
Se pensarmos a sociedade como um corpo, essa divisão revela quem tem direito à "substância" e quem fica com o "esqueleto". Quem come a carne de primeira consome a energia pronta. Quem disputa o osso está roendo a estrutura que sustenta o banquete alheio.
No Brasil, essa metáfora ganhou contornos de realidade crua nos anos do governo passado. As imagens de filas para disputar ossos e carcaças em açougues tornaram-se símbolos da falência geral. O osso deixou de ser o ingrediente do caldo para se tornar o prato principal da urgência.
VEGETAIS TAMBÉM EXCLUEM
Enquanto a carne divide as classes pela parte consumida do animal, os vegetais dividem pela densidade calórica, pela logística de conservação e pelo valor simbólico.
Raízes e tubérculos formam a base da pirâmide. Mandioca, batata-doce, cenoura, batata-inglesa são o equivalente biológico aos "cortes de terceira" ou ao sustento básico. Historicamente, raízes são o alimento de quem precisa de energia barata para o trabalho braçal. Elas crescem debaixo da terra, são resistentes, fáceis de armazenar e oferecem saciedade rápida.
Por muito tempo, a mandioca e o milho foram vistos como "comida de subsistência", relegados às classes populares, enquanto o trigo (importado e refinado) era o símbolo da elite. Hoje o trigo transgênico, doente, virou comida de subsistência e o milho a base para produção de dezenas de ultra processados.
ANCESTRAL ORGÂNICO
A maior divisão social nos vegetais não é o tipo de legume, mas seu método de produção. Vegetais "commodities", o tomate e o alface cheios de agrotóxicos são os que chegam às periferias. É o vegetal desvitalizado pela monocultura.
O vegetal "ancestral orgânico", comum no passado, tornou-se o topo da pirâmide atual. Legumes orgânicos, variedades heirloom (sementes crioulas) e o consumo direto do produtor sem venenos são, hoje, marcadores de altíssima classe social.
A grande diferença é que nos vegetais, a elite consome a frescura e a pureza (o privilégio de não ser contaminado), enquanto na carne consome a maciez (o privilégio de não fazer esforço). Nas classes mais baixas, o vegetal é muitas vezes apenas o "acompanhamento" volumoso para disfarçar uma carência alimentar, enquanto nos ossos e carcaças, o vegetal serve para "esticar" o caldo e dar a sensação de refeição completa.
TRANSIÇÃO
O boi está seguindo o caminho do açucar. Luxo da realeza no passado, tornou-se acessível às massas e, agora, por questões de custo e saúde, volta a ser para quem tem poder e informação. Carne para quem tem poder. O açucar para quem NÃO tem informação. Enquanto o açúcar deixa a dieta da elite por escolha, o boi deixa o prato das massas por imposição econômica. No futuro, os dois vão se igualar. A carne deixará também de ser consumida pela elite por questões de saúde, inclusive ambiental. Os churrasqueiros irão reclamar, os nutricionistas irão discordar, os pecuaristas, protestar, os governos, perder impostos mas os números crescentes de carnívoros doentes e mortos falarão mais alto.
O consumo de carne está historicamente associado a doenças cardiovasculares, uma das maiores causas de mortes no mundo. Aterosclerose, hipertensão, fibromialgia, inflamações vasculares, câncer colorretal, de pâncreas e próstata estão na conta. O risco aumenta no preparo em altas temperaturas. Diabetes tipo2 está associada à carne assim como doenças renais e metabólicas. Diverticulite e desequilíbrios graves na microbiota – linhagens e bactérias pró-inflamatórias no intestino – estão no seu vasto currículo de destruição. Isso sem contar o estrago aos ecossistemas, à poluição de rios e mares, o efeito estufa e os desmatamentos.
A VEZ DO POBRE FRANGO
Sem precisar de grandes espaços, florestas derrubadas e emitir gás metano, o frango ganha status. Confinados em prisões vigiadas 24 horas por luzes brancas e fortes, os pobres animais precisam crescer em 45 dias. Lá se vão os anos em que eles, livres nos terreiros, podiam crescer em 6, 7 meses. No atual contexto, os deprimidos seres não são uma escolha alimentar; são o limite imposto pelo sistema para manter a base da pirâmide em pé, escrava e submissa.
Ao colocar na balança da existência saudável, os vegetais têm posição, digamos, mais inteligente, mesmo que sejam abóboras, chuchus, quiabos, jilós. Não há, até o momento, registros de diabetes tipo2 por consumo de batata-doce ou de câncer de próstata por churrasco de abobrinha. Ah mas...e a proteína? O corpo na sua infinita inteligência metaboliza proteína a partir do arroz integral, do grão-de-bico e até da fantástica Ora-Pro-Nobis uma folha com 40% a mais de proteína do que a carne. Além do mais, pastos reconfigurados podem produzir uma diversidade imensa de vegetais em menor espaço do que bois. É possível que essa transição leve alguns séculos, quando os carnívoros com suas fibromialgias e doenças de Parkinson forem em maior número que os insistentes veganos. Provavelmente todos nós, atuais carnívoros e vegetarianos, já estaremos misturados aos átomos em corpos de sebosos bois do futuro. Ou de batatas.



Muito bom, Arthur! Gostei muito da comparação que você fez entre a saída do açúcar e a saída da carne da nossa dieta. A gente realmente precisa repensar o que é status e o que é saúde hoje em dia.
Aqui na torcida para que os átomos dos veganos irem parar num pé de Ora pro Nobis Brócolis, ou Feijão, do que numa seboso carne moída de 2a ou mesmo num pé de galinha confinada, com a possibilidade de virar colágeno...😂