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BEBENDO COM O INIMIGO

Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
Arthur Andrade Tree
28 de abr.
5 min de leitura

Atualizado: 2 de mai.



Geladinha, gostosinha, a água mineral está adoecendo você e sua família. Um litro dessa água em garrafas de plástico libera por dia até 240 mil nanoplásticos no corpo. Se você segue a orientação da ciência e toma dois litros, lá se vão pra dentro 480 mil partículas por dia. Em um mês, 14,4 milhões; em um ano, 173 milhões.

 

Aos 10 anos, uma criança terá cerca de 1,8 bilhão dessas partículas dentro do corpo só das garrafas de água. Esses números dobram com os refrigerantes em função da acidez. Agora avalie uma pessoa de 20, 30, 70 anos tomando água em garrafas de plástico, refrescando o calor com Coca-Cola e festejando aniversários com essas verdadeiras bombas?

Tim-tim?

 

VARIZES

 

A ciência anda mapeando a extensão dos danos. Lentamente porque o complexo industrial assim o exige. Mas nesse “lentamente” já constatou horrores inimagináveis.

Os nanoplásticos são fatores agravantes para o surgimento de varizes. Sim, varizes internas e externas. Varizes nos intestinos, no reto, varizes nas pernas, varizes por todo lugar.  

Os plásticos se alojam nas paredes dos vasos (endotélio) gerando resposta inflamatória crônica. Essas partículas enfraquecem as válvulas venosas e a elasticidade das paredes das veias podendo levar a Trombose Venosa Profunda TVP, com risco de morte.    

 

INFARTO E AVC

 

Estudo recém publicado no New England Journal of Medicine associa microplásticos ao alto risco de infarto e AVC. Os plásticos carregam aditivos químicos (bisfenóis e ftalatos) que mimetizam hormônios, interferindo no sistema endócrino e no metabolismo. Em nível celular, essas partículas rompem membranas e interferem na função mitocondrial, acelerando o desgaste e a perda de eficiência dos tecidos.

O sistema imune entra em estado de alerta tentando "combater" partículas que ele não consegue degradar, o que pode disparar condições autoimunes, inflamações crônicas, infartos e AVCs.

 

A presença dessas partículas não ocorre apenas pela degradação química do plástico, mas também pelo simples ato de abrir e fechar a tampa - gerando fricção e desprendendo fragmentos de polímero diretamente no líquido. A filtragem e o bombeamento industrial também contribuem para a contaminação. O calor acelera a quebra das cadeias poliméricas.

 

Deixar garrafas de plástico dentro de carros quentes é outro catalisador para a degradação do PET. O plástico é projetado para uso único. Amassar a garrafa ou lavá-la repetidamente cria microfissuras que facilitam a liberação de resíduos. Quanto mais tempo o líquido permanece em contato com o polímero, maior o perigo, maior a migração de compostos.

 

CAVALO DE TROIA NO CÉREBRO

 

A ciência segue investigando, mas já existem evidências robustas da influência dos micro e nanoplásticos em estados psíquicos. Ao atravessarem a Barreira Hematoencefálica (BHE), escudo protetor do cérebro, essas partículas são identificadas como invasoras pelo sistema imunológico, desencadeando um estado de inflamação crônica.

 

A neuro inflamação é uma das teorias biológicas mais aceitas para explicar, por exemplo, o aumento de casos de depressão. A produção de neurotransmissores é alterada levando o corpo à exaustão.  Amostras cerebrais de autópsias revelaram que o cérebro humano está acumulando uma quantidade alarmante de plástico com concentrações maiores em indivíduos que manifestavam declínio cognitivo.

 

ESTRESSORES AMBIENTAIS

 

Estudos em modelos animais mostraram que a ingestão crônica resulta em comportamentos semelhantes à ansiedade e distúrbios de memória, (demência, Alzheimer) diretamente ligados às mudanças na química intestinal.

 

O plástico não é apenas uma barreira física dentro do corpo; ele carrega aditivos químicos desreguladores endócrinos. Os desequilíbrios hormonais provocados por ele estão intimamente ligados à irritabilidade, ansiedade, ataques de pânico e depressão. Estressores ambientais sistêmicos, elevam a "carga alostática" do corpo (estresse), gatilho para que predisposições psíquicas se transformem em transtornos clínicos.

 

A ciência investiga essa conexão através do conceito de “exposoma” — o conjunto de exposições ambientais a que uma pessoa é submetida desde a concepção. A hipótese é que o acúmulo de microplásticos e seus aditivos  possam atuar como "moduladores silenciosos" do neurodesenvolvimento e da arquitetura da personalidade.

 

AUTISMO E TDAH

 

No caso do Transtorno do Espectro Autista e do TDAH, a suspeita recai sobre a fase gestacional. Plásticos contêm substâncias que enganam o corpo por se assemelharem a hormônios. Como o cérebro fetal depende de pulsos hormonais precisos para a formação de sinapses, a presença desses compostos "embaralha" essa sinalização, alterando a conectividade cerebral.

 

As células imunes do cérebro responsáveis por eliminar conexões desnecessárias, as “micróglias” entram em pane. Em escala nano, os plásticos hiperativam essas células, causando ou eliminação excessiva ou insuficiente, padrão observado em cérebros com TEA e TDAH.

 

NARCISISMO, PSICOPATIAS E EXTREMA DIREITA

 

A empatia depende do funcionamento íntegro do córtex pré-frontal e do sistema de neurônios-espelho. Se um organismo está sob neuro inflamação crônica (dos microplásticos), o cérebro tende a operar em modo de "sobrevivência" ou "defesa". Esses estados de estresse biológico constante reduzem a capacidade de processamento emocional complexo, favorecendo traços de isolamento afetivo e egocentrismo.

 

Há uma linha de pensamento que sugere que a onipresença de materiais artificiais e a desconexão com texturas naturais (alguns chamam de "deserto sensorial") podem contribuir para a formação de personalidades menos resilientes e mais propensas a transtornos do espectro narcisista.  


A exposição a metais pesados e poluentes orgânicos (que "pegam carona" nos microplásticos) tem sido associada à redução do controle de impulsos. Estudos sugerem que a contaminação ambiental pode diminuir a capacidade de julgamento moral. Em uma escala populacional, isso pode se traduzir em um aumento estatístico de comportamentos antissociais ou psicopáticos. Não é impossível suspeitar que o aumento da extrema direita no mundo teria relação com essa grave poluição ambiental e sensorial.

 


MAMADEIRAS MORTAIS


Cruel que ainda não proibiram o uso de mamadeiras de plástico. Elas liberam quantidades absurdas de micro e nanoplásticos. Estudo publicado na Nature Food (Reino Unido),indica que o processo de aquecimento e agitação acelera significativamente a degradação do material. Com o tempo e o uso repetido, o plástico sofre microfissuras que facilitam a migração de substâncias poluentes para o alimento. O aquecimento em micro ondas pode ainda piorar a situação ao criar pontos de calor excessivo que degradam o plástico de forma irregular e intensa.


Tudo pelo lucro, tudo pelo mercado. As vendas globais de mamadeiras ultrapassaram 1,28 bilhão de unidades em 2024. O setor é avaliado em US$ 4,41 bilhões. Mesmo com alertas sobre os microplásticos, o consumo global cresce 5% ao ano. Uma mamadeira de plástico pode liberar até 16 milhões de partículas de plástico por litro quando aquecida a 70º C.

 

A BOMBA FINAL SERÁ DE PLÁSTICO

 

Mais de 500 bilhões de garrafas plásticas são produzidas por ano. Uma marca como a Coca-Cola produz 167 mil por minuto. Os Estados Unidos são os maiores consumidores e apresentam os maiores índices de descartes de embalagens por habitante. Alemanha e Japão na sequência.

 

O Brasil, um dos maiores consumidores da América Latina, se destaca pela reciclagem mecânica, hoje entre os dez maiores recicladores do mundo. Mesmo com aumento da reciclagem, apenas 9% de todo plástico produzido foi efetivamente reciclado. Os efeitos dessa poluição na natureza são desastrosos. Mas o grande problema nem é o plástico visível. É o invisível.

 

Sob ação do sol e das ondas do mar, as garrafas se quebram em partículas menores que 5 milímetros. Elas entram nos plânctons, os alimentos dos pequenos peixes. A medida que animais maiores consomem os menores, vão concentrando mais plástico. O processo termina no prato na mesa, no corpo humano.

 

Estima-se que 12 milhões de toneladas entram nos oceanos todo ano. Existe uma “ilha” de lixo plástico no Pacífico maior que a França.

O plástico leva até 500 anos para se decompor na natureza. Dessa forma, os descartados no século 21 estarão decompostos no século 26, entre 2501 e 2600. Se a humanidade ainda estiver por aqui.

 

Vamos brindar a que, mesmo?

 

 
 
 

2 comentários


Lucia McAloon
22 de mai.

Texto forte e necessário para reflexão. Acho que precisamos reduzir riscos sem transformar a vida numa guerra impossível contra o mundo moderno. O progresso não vai parar, então o desafio talvez seja aprender a lidar melhor com as consequências.

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Eduardo
29 de abr.

Excelente o artigo. O modelo insdustrial vigente é um aliado perfeito da industria farmaceutica.

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