A FARRA DOS SUPLEMENTOS PLACEBOS

Os suplementos estão entre as sacadas mais geniais da indústria farmacêutica. Vender produtos para bilhões de pessoas enfermas (antibióticos, analgésicos, antitérmicos etc.) não era suficiente. Para extrair o máximo de dinheiro, seria preciso alcançar pessoas ainda “saudáveis”. Criaram então os suplementos, uma espécie de “plano de saúde” em cápsulas.
As justificativas para uso são as mais estapafúrdias. Vai da péssima qualidade do solo das plantações, aos alimentos sem nutrientes necessários para o corpo, à importância de suplementar com vitamina B-12 para quem não come carne ou vitamina D para quem não têm tempo de tomar sol.
São muitos os argumentos, todos com luminosas validações da ciência. Com tanto estímulo, fica difícil ao senso comum escapar da propaganda, das apresentações de médicos, nutricionistas e de toda uma fauna de especialistas expondo os poderes das cápsulas na TV e nas redes sociais.
A INDÚSTRIA
O comércio de medicamentos é gigantesco, com faturamento global de US$ 1,6 trilhão e crescimento de 5% a 6% ao ano. Mas a indústria dos suplementos, cujo faturamento em 2025 foi de US$ 210 bilhões, cresce a 9%. No Brasil, as taxas superam 15%. Cerca de 59% dos lares brasileiros consomem algum tipo de suplemento alimentar, aumento drástico em relação à década passada.
É um super negócio. Enquanto medicamentos exigem receitas, os suplementos são Over-The-Counter, venda livre. O crescimento acentuado desses produtos reflete um deslocamento do gasto com saúde, onde o consumidor prefere investir em prevenção do que em tratamentos curativos.
Vários estudos mostram que o consumo de suplementos ajuda a reduzir doenças, mas a discussão é se o benefício vem da pílula ou do estilo de vida.
Geralmente pessoas que adotam suplementos associam com mudanças de estilos. Em estudos epidemiológicos, essa alteração na rota é chamada de “Viés do Usuário Saudável”. Há portanto um padrão do consumidor passar a usar mais fibras, vegetais, frutas e evitar o excesso de açucares refinados e gorduras trans. E ainda partir para a atividade física, reduzir o tabagismo e o consumo excessivo de álcool quando decide investir nos suplementos.
Ou seja, os suplementos funcionam mais como um suporte psicológico do que como garantia de saúde. Alguém que usa suplementos mas mantém rotina de sono caótica, sedentarismo extremo e alimentação industrial dificilmente terá de fato saúde. Pode se encher de suplementos que o resultado será inverso, o aumento de doenças. Doses altas de Vitamina A e D, por exemplo, estão associadas a aumento de mortalidade e a certos tipos de câncer. O acúmulo de vitamínicos com ferro ou cobre pode gerar estresse oxidativo danificando tecidos em vez de proteger. Para pessoas com dietas equilibradas, está comprovado que o uso de multivitamínicos tem pouco ou nenhum impacto na prevenção de doenças.
PLACEBOS
Os suplementos podem atuar como placebos. A forte expectativa e o investimento pessoal envolvido na compra pode funcionar como gatilho de cura. Quando alguém gasta dinheiro em um composto, o cérebro cria uma ancoragem positiva que ajuda a liberar dopaminas e endorfinas gerando sensação de prazer e bem estar. Isso independe da substância química, boa parte das vezes em quantidades ínfimas por cada cápsula. Suplementos de B-12, por exemplo, têm 0,1% de principio ativo, o resto é material sintético, enchimentos, antiumectantes etc.
Correntes naturalistas defendem a natureza como a mais completa e perfeita fonte de suplemento alimentar. Nada substitui a luz do sol, o contato direto com a terra, com árvores, com água e todo o ambiente natural. Nada substitui a noite de sono, a luz da lua, as estrelas, o silêncio e a escuridão. Nada substitui o alimento da terra. O corpo humano é repleto de filtros de proteção contra toda sorte de invasores. O que ele reconhece como igual tem relação com sua natureza. Produtos criados em série nas máquinas das indústrias são todos invasores. Ao rejeitá-los, o corpo passa por um violento estresse oxidativo como explosões solares. Quando funciona, os sofridos rins eliminam o lixo. Quando não consegue, adoece. A compreensão disso dificilmente alcançará o senso comum. O poder da indústria depende dele.



Excelente reflexão! É impressionante como a indústria conseguiu transformar a saúde em uma necessidade de consumo de suplementos.
Parabéns, Arthur.
Recentemente suspendi o uso de alguns suplementos e não senti diferença alguma, a não ser no meu bolso, o que facilita obter,ainda mais,dopamina, com leitura e diversão...