top of page

A COMIDA ESTÁ MATANDO O PLANETA

Foto do escritor: Arthur Andrade Tree
Arthur Andrade Tree
21 de abr.
8 min de leitura



O corpo não é uma máquina que se desgasta com o uso, como ouvimos na escola. O motor de um carro não se auto recupera. O corpo é um sistema ativo de auto regeneração. Ele gasta energia para se manter organizado contra tudo que tenta desorganizá-lo.

Vamos admitir: ainda estamos vivos porque o corpo resiste ao dano e trata de recuperar esse dano continuamente. Bilhões de vezes ao dia sem que ninguém perceba.


Cada célula repara obsessivamente o DNA danificado, substitui proteínas defeituosas, reconstrói membranas comprometidas, mantem gradientes iônicos que deveriam se dissipar e faz isso sem parar 24 horas por dia desde o dia em que nascemos. Esse é o milagre. Mesmo contra tudo e contra todos, o corpo resiste. Nenhuma célula quer morrer como nenhuma barata pretende perder a vida para um chinelo. O corpo trabalha arduamente para que essa morte não aconteça. Por isso ele não é máquina.


ENTROPIA


Mas em algum momento ele vai jogar a toalha, forçosamente vai jogar porque a entropia é inadiável. Aos 20 anos, o conserto é quase perfeito, aos 80 é obviamente imperfeito. E as imperfeições são cumulativas. Na medida em que o dono do corpo não contribui, as imperfeições ganham a parada. Isso que parece biologia é na verdade física, a Segunda Lei da Termodinâmica, a Entropia, a desordem.  


A tendência de tudo no universo é a desordem. Montanhas, cidades, países, governos, empresas, relações e os corpos. A cada segundo tudo se desorganiza em algum nível e essa desordem nunca diminui espontaneamente. Uma casa abandonada desmorona, uma relação sem cuidado se desgasta e um corpo sem manutenção se decompõe.  A diferença em relação a todo o resto é que o corpo pode se recompor sozinho, numa clara ousadia contra a tendencia do universo. Mas isso tem um custo altíssimo de energia.


Para essa recomposição, o corpo importa energia de baixa entropia na forma de alimento. Esse alimento carrega energia do sol e o sol carrega energia da fusão nuclear. Essa cadeia começa nas estrelas e termina nas células. E as células usam essa energia pra manter a organização, reparar o DNA, substituir proteínas…manter o corpo vivo. Ou seja, estamos vivos graças às estrelas.  


DESTRUIÇÃO PELA BOCA


Ao fim do ciclo, o corpo descarrega para o ambiente energia acumulada de alta entropia, poluição. Ela sai na forma de CO2, resíduos, calor, líquidos etc. E esse saldo, acredite, será sempre destrutivo para o ambiente. A desordem que o corpo humano causa globalmente será sempre maior que a ordem que ele cria localmente. Uma lei nunca violada.


Agora imagine um corpo bombardeado por comida ultra processada, grosseira, artificial, confortavelmente disponível nas prateleiras dos mercados? Se um corpo alimentado de natureza contamina o ambiente, o que não fará ao ambiente um corpo intoxicado por comida artificial?


O primeiro atingido será o próprio hospedeiro, vítima de obesidade, AVC, diabetes, hipertensão, infarto, glicemia elevada, tumores cancerígenos colorretal, de estômago, de mama, esteatose hepática, constipação, transtornos alimentares compulsivos, doenças renais crônicas, mortalidade prematura.

 

HOSPITAIS DOENTES


E no ambiente, os impactos são igualmente devastadores. Para dar conta de tantas doenças, hospitais e clínicas consomem imensas quantidades de energia elétrica, seringas, luvas, embalagens estéreis. E descartam tudo isso no ambiente com quantidades extremas de medicamentos para diabetes, hipertensão, quimioterápicos e anti-inflamatórios geradores de resíduos químicos excretados nas fezes, urina que acabam nos rios e mares, afetando a vida aquática.

 

Além disso, pessoas em tratamentos geram lixo hospitalar que precisa de incineração ou aterro especial, liberando toxinas. Pacientes com doenças crônicas avançadas usam bombas de insulina, aparelhos de pressão, cadeiras de rodas, andadores e fraldas  descartáveis de difícil decomposição.

 

Impactos indiretos provocados pela cadeia causam ainda doença nas agriculturas intensivas e monoculturas de milho, cana-de-açucar, trigo, óleos vegetais. E produzem desmatamentos, erosão e contaminação do solo por uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, além do excesso de consumo e desperdício de água.

 

Na pecuária, a produção de carnes de animais confinados gera grande quantidade de metano, gás do efeito estufa. Na sequência, a poluição hídrica provocada pelas fezes e urina em alta concentração contaminam rios e lençóis freáticos com nitratos e fósforo causando zonas mortas nos oceanos.

 

Pessoas doentes por ultra processados são também grandes consumidoras de produtos com embalagens de plástico, isopor, alumínio, papel plastificado que geram poluição por micro plásticos no solo, água e ar. A consequência é mais lixões a céu aberto com incinerações e geração de dioxinas e furanos, cancerígenos. Ufa!!

 

A COMIDA ESTÁ NOS MATANDO

 

As doenças causadas pelo conforto dos ultra processados aumentam a pressão sobre o ambiente, e um ambiente degradado piora as mesmas doenças. A poluição do ar ainda agrava moléstias respiratórias. As ondas de calor aumentam o risco de desidratação e eventos cardiovasculares em pacientes obesos e hipertensos. E a escassez de água dificulta a própria higiene hospitalar.

 

A comida está matando o planeta enquanto o alimento pode estar em vias de extinção. Há uma diferença filosófica entre os dois. Comida busca saciar a fome de desejos, conquistas, poder e almeja a alta entropia. Alimento busca acalmar as células, abastecer as mitocôndrias, organizar o corpo e almeja a baixa entropia.  Comida leva à fome. Alimento leva à fartura. Comida nasce em latas e mercados. Alimento, na natureza. Comida é preguiça. Alimento é ação. A primeira é confundida com conforto. A segunda, com trabalho, desconforto. No final, comida desorganiza, alimento, harmoniza.

 

Digamos que a comida é uma invenção moderna, pós segunda revolução industrial. Foi quando constatou-se que seria mais barato e seguro produzir em larga escala em máquinas do que plantar. Isso tem pouco mais de século e meio. A matéria prima das monoculturas virou então dezenas de subprodutos vendidos como produtos. O milho virou cerveja, fubá, shoyo, xarope, álcool, café. A cana de açucar virou açucar refinado, melaço, cachaça, álcool automotivo, mel de cana. O trigo virou hamburguer, pizza, macarrão, miojo, bolos, doces, pães, panetones, biscoitos, uma infinidade.

 

Migrou-se das feiras livres para os supermercados. Daí para as farmácias. Construído há milhões de anos, o processo primitivo de comer, mastigar e digerir foi substituído pelo ato de engolir e correr pra vida. Não há mais tempo para mastigar e digerir. A comida já vem pronta para livrar o humano do transtorno do preparo – fogão, panelas, louças para lavar. Pratos descartáveis. Pedidos por whatsapp, Ifoods, Uberfoods, 99foods. Comida em potes de isopor com talheres de plástico.

 

ELO MAIS FORTE COM A TERRA

 

A comida deu um chega no sistema digestivo dos humanos, um dos componentes mais primitivos da arquitetura biológica. Do ponto de vista evolutivo, somos essencialmente tubo digestivo com apêndices e um processador central (cérebro). O design básico é composto por um sistema de entrada, processamento e saída. Isso desde bilhões de anos. O sistema possui sua própria rede de neurônios. Essa autonomia é um traço primitivo – ele funciona de forma reflexa e independente, sem precisar da permissão de senhor ninguém.


A mastigação é pura  "tecnologia" biológica.  Ignoramos que ela é um ato de pré-processamento mecânico extremamente eficiente. Ao triturar o alimento, a área de superfície que as enzimas trabalham é aumentada. Isso permitiu, por exemplo, que os mamíferos pré-históricos extraíssem calorias de forma muito mais rápida que os répteis.  Embora possamos escolher o que comer, o ato de mastigar, a cascata hormonal de saciedade e a digestão seguem caminhos bioquímicos que não mudaram em bilhões de anos.


Diferente do cérebro, que se adaptou  à linguagem e à abstração, o aparelho digestivo opera em escala de tempo evolutiva muito mais lenta. Ele ainda espera por alimentos em seu estado íntegro, fibras e nutrientes densos. Ele ainda sonha com o passado.


O "Complexo Industrial" tratou de destruir esse sonho. Produtos ultra processados criados por ele não exigem esforço mecânico ou químico. Isso faz com que o sistema entre em colapso justamente por ser primitivo e verdadeiro demais para lidar com substâncias sintéticas que não existem na natureza.  O sistema digestivo é o elo mais forte com a Terra. Enquanto o pensamento é volátil e moderno, a digestão é terrena e rítmica. Comer é um ato primitivo porque é a base da sobrevivência, sobre a qual toda a complexidade humana foi construída.


TALHER, TOALHA E MANDÍBULA

 

O ato primal de comer é disfarçado por etiquetas, rituais e vicios alimentares.  O que chamamos de "gastronomia" ou "etiqueta" é apenas uma camada estética e social que aplicamos sobre um processo que é puramente mecânico e químico. Os rituais à mesa e as etiquetas de comportamento servem para domesticar o que há de mais animal em nós: a necessidade de ingerir matéria orgânica para não morrer.

 

Quando se remove o talher, a toalha de linho e as normas sociais, o que sobra é a mandíbula, um instrumento projetado para romper fibras e tecidos.  O vício alimentar é, talvez, a maior prova da "ingenuidade" desse sistema primitivo. O aparelho digestivo e os centros de recompensa do cérebro foram moldados para valorizar a densidade energética. A indústria utiliza o "ponto de êxtase" (bliss point) para sequestrar esse instinto e escravizar.

 

Por ser primitivo, o sistema digestivo não tem um "filtro de qualidade" para substâncias artificiais; ele tenta processar o que entra, mesmo que isso custe a integridade do organismo a longo prazo. Como o sistema opera sob uma lógica de sobrevivência básica, ele não entende o conceito de excesso ou de substância inerte. O estresse gerado pela alimentação artificial não é apenas químico, é estrutural.


Alimentos que não exigem mastigação enfraquecem a arcada e sinalizam mal ao cérebro sobre a saciedade. Gera uma confusão biológica, o corpo recebe calorias, mas não recebe a "informação" nutricional que o sistema primitivo espera, gerando um estado de alerta constante. É como se estivéssemos tentando rodar um software pesado (a dieta moderna) em um hardware (o trato digestivo) que foi desenhado para ser robusto, mas extremamente simples e honesto na sua função.


CORPO DESESTRUTURADO

 

O complexo industrial desestrutura o corpo feito para operar na natureza. Vestimos roupas modernas, mas nosso corpo continua nu na mais remota ancestralidade.

Esse corpo nu revela o descompasso cronológico em que vivemos: habitamos uma civilização tecnológica com uma biologia que ainda responde aos ritmos do sol, da terra e do esforço físico real.

 

O complexo industrial não apenas agride o organismo; ele ignora as leis fundamentais que regem esse hardware ancestral.  O corpo humano foi desenhado para operar em simbiose com o ambiente. A indústria o "vestiu" com isolantes (asfalto, calçados de borracha, luz azul artificial), bloqueando o sistema de auto regulação que o corpo usa para dissipar o estresse oxidativo.

 

A alimentação artificial é, portanto, uma "informação falsa". O sistema digestivo primitivo recebe um ultra processado e tenta, de forma hercúlea, encontrar ali os blocos de construção da vida. Como não encontra, o gasto energético para digerir e desintoxicar substâncias estranhas acaba sendo maior do que a energia absorvida. O sistema começa a operar no prejuízo, aproximando-se perigosamente do ponto de colapso.

 

BARRO QUE PENSA

 

O resultado é um organismo "hackeado" tentando forçar um motor de altíssima resistência e baixa manutenção a queimar um combustível adulterado em um ambiente estéril. Nesse cenário onde a "roupa moderna" sufoca a natureza, o isolamento e o retorno aos pilares básicos — contato com a terra e a eliminação de substâncias sintéticas — são a única forma de restabelecer a comunicação com nossa essência nua.


E essa "essência nua" não entende códigos de barras ou prazos de validade; ela entende de química natural e troca de elétrons. Ao optar por esse caminho revolucionário, a digestão deixa de ser um combate e volta a ser um processo rítmico de absorção, onde a energia é preservada em vez de desperdiçada.


O contato direto com a terra funciona como um "reset" para o sistema elétrico do organismo. Em um mundo saturado por frequências artificiais e isolantes, o corpo acumula uma carga estática que gera inflamação crônica. Ao tocar o chão, o corpo descarrega esse excesso e absorve a carga negativa da Terra, estabilizando o ambiente interno para que as células possam operar sem o ruído do estresse oxidativo.


Viver de forma integrada a esses pilares — sol, terra e alimento íntegro — fortalece a resistência do sistema. Em vez de depender de uma "muleta" externa (suplementos, remédios, estimulantes), o corpo resgata sua autonomia. É a diferença entre um organismo que está apenas "sobrevivendo" em um ambiente artificial e um que está operando em plenitude sob as leis da natureza.


Reconhecer que o aparelho digestivo é primitivo e que o corpo precisa do solo é admitir que a nossa tecnologia é apenas uma "prótese". Por mais que criemos algoritmos ou cidades inteligentes, nossa mitocôndria ainda precisa do elétron da terra e do fóton do sol. No fundo, somos barro que pensa.

 

Hartur

 
 
 

1 comentário


Lucia McAloon
26 de abr.

Muito bom o texto, Arthur! Adorei a diferença que você fez entre comida e alimento. Parabéns, amigo!

Curtir
  • Facebook
  • Instagram

©2024 por Bipolar News. 

bottom of page